• 26 de março de 2010
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Zenit entrevista o fundador Padre Thierry de Roucy (I)

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«Pontos Coração»: Uma ajuda «materna» às crianças abandonadas

Palavra do fundador, padre Thierry de Roucy

ROMA, 10 de maio de 2004 (ZENIT.org).- Entre as instituições que acolheram o convite de João Paulo II de sair em socorro da infância maltratada encontra-se a obra católica «Pontos Coração», surgida em 1990.

Esta Associação Privada de Fiéis oferece aos jovens a possibilidade de viver durante catorze meses (ou mais), em algum dos bairros mais pobres do mundo, onde as crianças estejam particularmente abandonadas, para levar-lhes consolo.

O Papa pediu este domingo que se acabe com o abuso que constitui o trabalho infantil, pois impede a educação primária de milhões de crianças no mundo, em vésperas do Congresso mundial de crianças contra o trabalho infantil, que se celebra em Florença de 10 a 16 de maio (Cf. Zenit, 9 de maio de 2004).

Para compreender melhor como «Pontos Coração» —obra surgida em 1990 e já presente na África, América, Ásia e Europa— presta auxílio à infância abandonada, Zenit entrevistou o seu fundador, padre Thierry de Roucy.

— Por que fundou «Pontos Coração»?

— Pe. T. de Roucy: Em janeiro de 1990, sendo superior-geral de minha Congregação, os Servidores de Jesus e Maria, enquanto rezava o rosário com meus irmãos, recebi de repente o chamado de fundar uma obra de compaixão e consolo, uma obra mais contemplativa em sua maneira de conceber a realidade e a ajuda, uma obra diferente de muitas das organizações não-governamentais que hoje existem. Nessa perspectiva, percebi vários elementos: esta obra não seria uma congregação religiosa «clássica», mas uma associação que enviaria jovens durante um ou dois anos para lugares nos quais as crianças tivessem necessidade de apoio espiritual, afetivo, psicológico…, enfim, um apoio «maternal».

Senti também que a missão desta obra deveria estar fundamentada, verdadeiramente, sobre a vida de oração e adoração dos jovens voluntários e que sua estadia nos «Pontos Coração» seria para eles como um retiro de um ou dois anos. Em resumo, dava-me a impressão de que nossos voluntários teriam o lugar de Maria ao pé de todos os crucificados de hoje e que poderiam olhá-los, amá-los, alentá-los em suas provações e dar um sentido a suas vidas. Uma missão que poderia parecer pouco eficaz aos olhos do mundo, mas, em definitivo, a missão de Maria ao lado de Jesus…

— Como reagem os jovens depois de ter passado um tempo em «Pontos Coração»?

— Pe. T. de Roucy: Depois de dois ou três meses, muitos me escrevem para dizer-me: «Padre Thierry, creio que errei. Eu pensava dar mais do que podia receber de nossos vizinhos, mas é o contrário. Nossos amigos nos dão muito mais. Esta experiência me enriquece como nunca imaginei».

Um dos grandes princípios de «Pontos Coração» é a frase de São Vicente de Paula: «os pobres são nossos mestres». Na civilização contemporânea, os pobres nos recordam que o essencial da vida humana são as relações, que a fé não é uma espécie de crença em um princípio abstrato, mas que é uma vida cotidiana com Deus, que se manifesta na confiança nele em cada momento e que nos convida a caminhar sobre as águas sem medo.

Nestes bairros, nos quais há tanto sofrimento, percebe-se que a graça é um dom constante para apoiar estas pessoas. Nestes quinze anos experimentei de maneira surpreendente a presença da graça divina. É impossível viver o que vivem nossos amigos nas favelas ou nos bairros de miséria se Alguém não lhes fortalece hora após hora, dia após dia, e não lhes permite superar todas as provas que os afligem, como a morte sucessiva dos filhos no caso das mães, da violência onipresente, a insegurança, o medo ante o amanhã…

Se Deus não estivesse aí para dar a tantas pessoas feridas pela vida a graça de um sorriso, a força da esperança, não sei como poderiam suportar… De fato, em mais de uma ocasião tive a feliz oportunidade de encontrar-me com pessoas encarceradas durante muito tempo e, por causa de sua fé, disseram-me: «Os anos passados no cárcere são sem dúvidas os melhores de minha vida». Sem Deus, como é possível explicar estes testemunhos?

— Que é um «Ponto Coração»?

— Pe. T. de Roucy: Um «Ponto Coração» é uma pequena casa na qual vive uma comunidade de «amigos das crianças» (nome que se dá aos voluntários desta associação). Em cada uma delas, há uma pequena capela com a presença do Santíssimo Sacramento. Inclusive nas localidades nas quais não se dá o costume de confiar a Presença real a jovens católicos, os bispos sempre nos deram sua autorização.

Há uma casa ou duas para as meninas, de uma parte, e uma casa ou duas para os meninos, por outra. Cada «Ponto Coração» possui, também, uma casa na qual simplesmente acolhem-se as pessoas que vêm para ver-nos.

A manhã é dedicada especialmente à vida comunitária em casa (compras, preparação da comida, lavar a roupa…), a oração e o estudo. Pela tarde, os jovens saem para encontrar-se com as pessoas do bairro; outros ficam para acolher os que vêm ao «Ponto Coração».

— Há momentos de oração particular?

— Pe. T. Roucy: Sim. Na manhã, os «amigos das crianças» rezam as Laudes, e ao final da tarde as Vésperas, e à noite as Completas, durante as quais pede-se perdão mutuamente pelas faltas cometidas na jornada. Participam da missa de sua igreja paroquial. Por turnos, passam cada manhã uma hora de oração ante o Santíssimo Sacramento. Com freqüência, as pessoas do bairro vêm rezar com eles. Ao início da tarde, rezam o Rosário. É a oração na qual mais gente do bairro participa. Os «amigos das crianças» aproveitam-na em ocasiões para dar uma pequena catequese a nossos vizinhos sobre os mistérios do Rosário.

— Como os «Pontos Coração» ajudam concretamente essas pessoas?

— Pe. T. de Roucy: A maioria dos serviços que oferece é de caráter «maternal». Nos bairros nos quais nos encontramos, os pais de família em geral estão ausentes. As mães têm muitíssimo trabalho e uma missão que lhes ultrapassa. Ocupam-se, sobretudo, do filho menor ou dos últimos, e os demais ficam à mercê deles mesmos. Deste modo, com freqüência, não há ninguém que lhes inscreva na escola. Não há ninguém que se ocupe de suas roupas ou de seu estado de saúde. Não há ninguém que lhes escute. Se passam fome, então vêm nós, ou, se estão enfermos, etc. No Líbano, as crianças vêm com freqüência para fazer os deveres da escola, pois não têm uma mesa onde trabalhar em suas casas ou ninguém que lhes ajude.

Com freqüência, simplesmente estas crianças vêm para contar-nos sua vida. Sentamo-nos com os pequenos para que nos contem o que fizeram esse dia, como gostam de fazer todas as crianças do mundo. Em nossos bairros há muitos acontecimentos trágicos que nos obrigam a sair em sua ajuda. Crianças que morrem muito pequenas de maneira brutal: vamos consolar sua família e seus amigos. Mães que dão à luz sozinhas. Anciãos que agonizam. Brigas. Um dia, em uma briga entre um pai e uma mãe, o televisor foi atirado e a criança foi atingida. Seu irmão mais velho nos chamou e fomos socorrer-lhe. Trata de milhares de serviços. Também tentamos pôr em relação nossos amigos com outras organizações não-governamentais para que possam beneficiar-se da ajuda que oferecem.

— Não tem medo de enviar jovens a bairros perigosos?

— Pe. T. Roucy: Sim, claro que sim, em certas ocasiões tenho muito medo, pois, também sentimo-nos muito perto de cada um dos «amigos das crianças» que enviamos em missão. Mas me deram conta mil vezes de que estes jovens, quando se encontram em uma situação particular, têm verdadeiramente uma graça de estado para cumprir sua missão. Estão misteriosamente protegidos. Seus pais lhes vêem em certas ocasiões com crianças grandes —é normal—, mas nós lhes consideramos verdadeiramente como adultos, pois lhes vemos enfrentar as situações com uma sabedoria e uma generosidade que nos surpreendem.

Também, há algo incrível: a população protege estes jovens. Realmente querem os «amigos das crianças». Em várias ocasiões, seus vizinhos me disseram: «Não se preocupe por seus jovens. Nós cuidamos deles!». O mundo funciona ao inverso. No Haiti, por exemplo, quando aconteceram os primeiros atos de violência, as pessoas de Cabo Haitiano seguiam com muita atenção o que passava ao «Ponto Coração». Quando decidimos ir-nos, nossos amigos se sentiram tranqüilizados. Tinham medo de que pudesse acontecer algo aos jovens.

— Quando chegam a um bairro novo, como se apresentam ante a população?

— Pe. T. de Roucy: Para dizer a verdade, não nos apresentamos muito. Nos países da América Latina, onde o povo é aberto, descobre-se muito rapidamente a razão de nossa presença. No nascimento de um «Ponto Coração», na maioria das vezes há um bispo, um missionário, um diplomata que nos chama, e temos que optar, pois recebemos ao menos um pedido ao ano. Se cremos que podemos responder a este pedido para fundar uma casa em um bairro, eu mesmo ou um membro da associação vamos passar um período de tempo nesse lugar. A pessoa que nos convidou nos põe em contato com algumas paróquias nas quais poderíamos implantar-nos, e tratamos de encontrar a casa que nos parece mais apropriada no bairro. Depois, chega uma pequena equipe de jovens com uma pessoa da associação mais experiente. O pároco, que em geral já advertiu aos paroquianos de nossa chegada, não tarda em apresentar-nos.

Lembro-me, por exemplo, do que sucedeu no Líbano. Nosso pároco organizou uma procissão desde a igreja até nossa casa, com um grande ícone da Virgem. Detrás iam os jovens do «Ponto Coração», e depois toda a população que nos acompanhou até nossa casa. Toda a gente do bairro pôde ver que formávamos parte da Igreja Católica, e o pároco explicou por que estávamos ali.

— Quantos jovens vivem atualmente em «Pontos Coração»?

— Pe. T. de Roucy: Entre 160 e 170. Desde a fundação da associação, mil jovens se comprometeram neste serviço durante mais de um ano. A metade procede de França. Os demais, de vinte países diferentes, sendo a maioria da Europa, mas também da América Latina e da Ásia.

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