• 28 de novembro de 2008
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Uma obra humana profundamente humana

De um Ponto Coração a outro n°14, março de 1996

HÁ mais de cinco anos, a fundação de Pontos-Coração me levou a fazer longas e freqüentes viagens, a fazer numerosos encontros, a afrontar, sozinho e com outros, numerosos problemas, a refletir sobre múltiplas questões. Mesmo se na maior parte do tempo, eu apareço como o principal protagonista dessas experiências, tenho a sensação bem nítida de que elas não me pertencem. Elas são o bem comum da nossa família mesmo se, por discrição, um certo número delas devam ficar escondidas. Eu teria gostado de oferecer-lhes um primeiro balanço dessa aventura espantosa, às vezes surpreendente, que representa a fundação de uma Obra como Pontos-Coração. Teria gostado de oferecer-lhes minhas descobertas, minhas constatações, minhas esperanças.

A extensão do sofrimento

Osofrimento pode parecer um fenômeno sem surpresa. Sabe-se da existência de hospitais, de orfanatos, de campos de concentração… Sabe-se toda a quantidade de lágrimas acumuladas nestes lugares. Isto já pode nos parecer monstruoso. Mais ainda é descobrir que o sofrimento não é abstrato, anônimo, desvinculado mas que ele fere um coração, desfigura um rosto. Encontrar um homem que sofre, escutar até o fim seus silêncios, seus gritos, suas revoltas, atinge mais que meditar sobre todo o sofrimento da humanidade. E quando se toma tempo para inclinar-se sobre o sofrimento de um homem, carregá-lo um pouco com ele, depois com um segundo, depois com um terceiro, o pavor da cruz – uma cruz bem palpável, bem áspera, uma verdadeira cruz de madeira, pesada, bem pesada, que faz cair mais e mais – nos invade.

Da mesma forma que não existem pecados abstratos, não existem sofrimentos abstratos. O sofrimento é sempre o sofrimento de uma carne, de um coração, de uma inteligência. É o incrível sofrimento daquele seminarista vietnamita, encarcerado durante vários anos em um calabouço sombrio, os pés presos em blocos de chumbo, lutando dia após dia para não tornar-se louco… É o sofrimento daquele jovem argentino, violentado na sua infância por um dos membros da sua família, expulso de sua casa, violentado de novo, entregue à droga e ao álcool, incapaz de controlar a terrível violência que o habita… É o sofrimento daquela mocinha colombiana de quatorze anos, já grávida, esperando, sob o olhar do seu alcoviteiro, o próximo cliente que abusará do seu corpo já ferido… E, é a existência de cada homem de cada país, que se poderia descrever nesta lista, pois ninguém escapa à grande lei do sofrimento, mesmo àquele cuja vida parece feliz e que, sem dúvida, conhece também sua cota de dores íntimas.

O Corpo inteiro de Cristo está sobre a cruz. Nenhum osso, nenhum membro é poupado. Seu corpo está estraçalhado, seu espírito moído, seu coração traspassado. O corpo da humanidade também está todo inteiro sobre a cruz. Nenhum membro escapa a dor. Mas ao pé da cruz, o coração de Maria faz-se receptáculo deste incrível sacrifício.

Onde é reconhecida a dignidade humana?

INSTITIVAMENTE, para mim o homem é um ápice inalienável. Criança, apesar de todos os convites que me faziam para revidar, eu tinha dificuldades em descontar o murro que recebia pois temia ferir aquele que me agredia. Meus estudos me confirmaram esta percepção da alta dignidade do homem: eu aprendi que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, que ele é somente « um pouco menos que um deus», que ele é chamado a ser perfeito como o Pai celeste é perfeito.

Todavia, paralelamente, minhas leituras me abriram os olhos. Rapidamente os horrores dos campos de concentração, da guerra, me fizeram pensar que tais idéias não deviam ser partilhadas por todos e que, para muitos, o homem não passava de um cão, um inimigo a sacrificar, uma pedra de tropeço no caminho da realização de suas ambições. Neste sentido, Pontos-Coração foi um golpe fatal: os encontros aos quais me obrigaram as fundações, me mostraram que esta percepção não era imaginativa, mas perfeitamente real. Aquilo que eu tinha aprendido da Declaração dos Direitos Humanos, da Carta dos Direitos da Criança, da alta dignidade do ser humano – sem, de minha parte, colocá-la em questão, ao contrário – me parecia quase da ordem da hipocrisia, do jogo político ou de um ideal muito longínquo. Na maioria dos Estados e para uma grande parte dos homens, a realidade era outra.

Vi com os meus próprios olhos que se podia matar homens como pássaros em uma cerejeira – porque eles eram demais –, prendê-los por causa de idéias revolucionárias (quer dizer, cristãs), utilizá-los como burros de carga, martirizá-los por prazer, vendê-los por um pedaço de pão. Às vezes, a surpresa foi tanta, que me deixou totalmente mudo. Só uma exclamação poderia ter brotado da minha boca, como expressão de revolta de todo meu ser: « Mas é um homem! »

Os filósofos anunciam a morte de Deus. Uma tal afirmação pode chocar. Mas, em certo sentido, ela é dramaticamente verdadeira. Deus morre porque não se cessa de fazer morrer o homem. A cruz do Gólgota e os gulags de hoje, não são uma só coisa? A morte de Deus e a morte do homem, não são uma só coisa? A atitude do homem face ao homem, e a atitude do homem face a Deus, não são ainda uma só coisa? Os direitos do homem não se fundamentam sobre os direitos de Deus? E se estes últimos são desprezados, os direitos do homem não tardam a serem ignorados?

Os místicos dizem: « É preciso salvar Deus! » Eu creio que se salva Deus quando se salva o homem; ama-se Deus, amando-se o homem; respeita-se os direitos de Deus, respeitando-se os direitos do homem, da mesma forma, respeitando os direitos de Deus, somos inclinados a respeitar os direitos do homem.

A necessidade do Natal, a resposta da Páscoa

SE contabilizasse todos estes minutos de sofrimentos, que parecem insuperáveis por serem tão longos e pesados, poderia sentir-se atordoado. Quem nos livrará de um tal fardo? Espera-se novas vacinas – novas doenças sempre aparecem! – ; espera-se novos governos – eles são às vezes piores que os anteriores! – ; sonha-se com reformas sociais – de qualquer maneira deixam sempre a desejar!

Com certeza, a vida é mais fácil quando se sai da prisão, do hospital ou do campo de concentração, mas o mesmo vazio pode permanecer tanto exterior quanto interior. Os responsáveis podem atenuar a situação. As estruturas podem melhor atender às necessidades de todos, a pobreza pode ser resolvida, mas uma espera permanece: aquela de uma solução mais essencial, mais interior. Uma espera que para muitos, não tem nome; uma espera que pode se exprimir como o pressentimento de uma presença salvífica. Uma espera que eu traduzo assim: a espera do Natal, a urgência da Ressurreição.

Muitos vivem na esperança de um acontecimento. Aqueles cuja experiência é limitada esperam ainda um acontecimento bem terrestre. Aqueles cuja experiência é mais rica sabem que nada nesta terra pode deter o mal. Seu peso é demais e a história dos homens, por si mesma, é incapaz de trazer qualquer salvação.

É preciso Alguém do exterior que aja no interior. Não é preciso um «acontecimento-acidente» (revolta, monarquia…), mas um «acontecimento-pessoa», um «acontecimento-presença», um «acontecimento-eternidade». É preciso Natal: um Deus escondido que surge na noite dos homens para conduzi-los à aurora da ressurreição. Um Deus que conhece cada um por seu nome, que toma sobre Si cada uma de suas feridas, que carrega nEle seus sofrimentos íntimos libertando-o em sua Páscoa, em seu sim total e definitivo a Deus.

Cada um daqueles que nós encontramos, e primeiramente nós mesmos, tem necessidade – uma necessidade essencial – de tomar a mão de um Emanuel, como o cego de Jericó. Uma mão que nos conduza ao interior – ao mais profundo do nosso presépio (exploração confiante da nossa miséria) – e nos conduza além, ali para onde nenhuma ideologia nos pode levar: o Coração benevolente do Pai (descoberta maravilhada da misericórdia). Aí está a Obra do Natal: o Menino, menor e maior que todos os filhos dos homens, que oferece Sua amizade aos pobres, que estende a mão para eles, que os alimenta com a Palavra eterna, que lhes lava os pés colocando-se abaixo deles, que assume seus pecados e os carrega como um pastor carrega o cordeiro recém-nascido ao Reino onde o mal não pode mais atingi-lo.

Poderia-se estranhar o fato que um acontecimento, cujo coração de todo homem hoje deseja, já tenha vinte séculos. Pergunta-se onde está a revolução que este acontecimento causou. Pergunta-se a qual luz a Ressurreição conduziu a humanidade. O Natal, a Ressurreição, são hoje acontecimentos misteriosos. Percebem aqueles que lêem na noite. Descobrem aqueles que escutam a «música silenciosa» do amor. Acolhem em si, os pobres, os mais pobres de si mesmos. Natal é, mas Natal tem necessidade de propagar-se no destino dos homens, e Natal se propaga, como a Ressurreição, cada vez que um coração se abre escancarado à Mãe, para que ela aí coloque seu Filho de luz.

Nada muda nesse momento. E tudo muda. A favela permanece favela. A criança morta não se levanta. A bolsa não enche. Mas o insuportável torna-se suportável porque ele é vivido na presença de uma Presença que lhe dá sentido. O absurdo, o revoltante, a miséria levam ao mistério, à adoração, à misericórdia. Nasceu o Menino, ressuscitou o Crucificado e a esperança elevou o mundo.

Uma confirmação

HOJE, está na moda falar do humanitário. E neste sentido, freqüentemente perguntam-me se Pontos-Coração é uma obra humanitária. Para dizer a verdade, eu não sei muito bem… O que eu creio, é que Pontos-Coração é uma obra humana, muito humana na medida em que ela tenta manter os olhos fixos em Jesus Cristo.

Quando fiz os primeiros tramites para a fundação da Obra, a intuição que tinha recebido não me parecia tão extravagante. Eu tinha ao menos a certeza tão nítida que o homem – e sobretudo aquele atingido pelo sofrimento – tinha necessidade de uma presença compassiva ao seu lado, que jamais questionei a veracidade desta intuição. Hoje, esta sede de presença do coração humano me aparece como um grito violento, como uma urgência manifesta. Não somente tenho a convicção que é a sede mais íntima do homem, mas sou possuído por esta obsessão – que partilho ao menos com todos os Amigos das Crianças – que é preciso oferecer um amigo aos pobres e aos pequenos, para que eles vivam como homens, um amigo de coração infinito que preencha o infinito dos seus corações.

Um dia, eu fiz uma visita mais demorada a uma mãe de família no Lobato (Salvador da Bahia). Pensando que já tínhamos ficado tempo suficiente, começamos a nos despedir. A senhora iniciou a exclamar, quase ofendida: « Mas vocês já vão! » Saindo do seu barraco, meu companheiro tinha lágrimas nos olhos: « Padre Thierry, mesmo que às vezes fiquemos horas nas casas dos nossos amigos, partimos sempre cedo demais; nunca somos presentes o bastante, a sede deles sempre ultrapassa aquilo que nós podemos dar! E sempre eles cobram isso! » Pensei na frase colocada pelas Missionárias da Caridade ao lado do crucifixo da capela delas: « Tenho sede! » Jesus tem sede, Ele tem sede de algo mais… Nossos amigos têm sede, eles têm sede de algo mais… Eu tenho sede, tenho sede de algo mais… Eu não sabia mais se buscávamos satisfazer a sede de Jesus, ou a dos nossos amigos, ou mesmo a minha… Não sabia mais se era Ele quem nos pedia de beber, ou se éramos nós quem pedíamos… Não sabia mais quem abrandava a sede de quem… quem estava na cruz e quem ficava juxta crucem … Jesus… nossos amigos… nós?…

Pontos-Coração, uma obra humana? Uma obra humana porque obra cristã. Obra humana, profundamente humana, porque ela quer satisfazer o mais profundo da sede humana: a sede do coração. Uma obra profundamente cristã porque ela quer unir-se ao dom do próprio Cristo: aquele do seu Coração.

As obras humanitárias, com justiça, se preocupam muito com o resultado, a eficácia, a produção. Uma obra humana como Pontos-Coração não pode ter esta ambição. A fecundidade é de um outro tipo, que não se pode medir em cifras, nem balanços, nem resultados de exercício. Da mesma forma que os apóstolos não podiam contabilizar os frutos de cada encontro de seu Mestre, de cada visita feita nos vilarejos que Ele atravessava, da mesma forma que é impossível conhecer todos os efeitos da celebração ou da adoração eucarística na assembléia, é impossível conhecer exatamente o fruto de uma visita a um doente, de uma brincadeira com as crianças, da presença de um Amigo das Crianças em um bairro. Existe aí um que de mistério, às vezes difícil de aceitar: o homem gosta tanto de avaliar, medir, cifrar sua ação para provar a si mesmo que ele é alguém! Mas quanto mais se dirige ao íntimo do homem, quanto mais se quer atingir o seu coração, quanto mais se quer tocar aquilo que existe de mais humano no homem, mais é preciso renunciar a isto. Uma obra humana, profundamente humana, escapa às contabilizações humanas: não existe senão Deus que conhece os frutos, pois Ele permanece Mestre de toda ceifa.

Cada manhã, a missão de Pontos-Coração nos parece mais vasta, pois cada manhã, o sofrimento do homem nos parece mais amplo e mais profundo. Os braços da cruz se estendem muito além da nossa percepção. E nos dizemos: é preciso que a Mãe esteja lá, ao pé desta cruz desmedida onde está pregada a humanidade; é preciso que ela esteja lá, com seu coração desmedido de Mãe. Ou seja: é preciso que nós estejamos lá. É nossa missão. Uma missão que nos ultrapassa e ao mesmo tempo nos maravilha, pois ela coincide com um grito terrível, pois ela satisfaz uma sede, a sede última e desmedida, a sede de escutar: « Eu estou aqui. » Uma missão que não queremos cumprir como trovadores e cavaleiros, mas segundo o modo bem humano da eucaristia – que se abaixa e se eclipsa –, segundo o modo bem maternal da Mãe – que permanece silenciosa e ofertada.


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