• 28 de janeiro de 2008
pt_br

O mistério da incorporação

Pe. Thierry de Roucy

Pelo mistério da sua Encarnação, Cristo nos incorporou Nele. Desde aquele momento, nós estamos em Cristo. Quando o Pai vê o Filho, Ele vê Nele o homem que nós somos, e quando Ele vê o homem ou a mulher que somos, Ele vê o Seu Filho, o Seu Único. Somos os ramos da videira. Somos os membros do corpo. Somos as pedras da casa. Recebemos a nossa vida Dele. No sentido mais forte que se possa imaginar, Ele nos acolheu Nele, Ele viveu a hospitalidade de maneira mais perfeita, dando lugar, Nele mesmo, à humanidade pecadora para que ela participe da santidade do Seu Nome e tome parte do Seu Corpo glorioso.

Aquele que se compromete na obra Pontos-Coração entra, dum modo muito radical, neste misterioso processo de incorporação; ele responde ao apelo recebido de viver a compaixão e a hospitalidade da maneira em que Jesus viveu. E isso não é pouca coisa.

Ele se encarna dentro de um povo, ele se deixa ferir por esta carne ferida, ele se deixa também transfigurar por ela. Ele não vive com o povo dele. Ele vive dentro do povo dele. E se ele pode dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gal.2,20), ele também pode dizer: “Eu vivo, mas não sou mais eu, é o meu povo que vive em mim.” É o meu povo que me habita. É o meu povo que se torna os meus olhos e o meu coração. Assim, tem analogia entre o que a Igreja é para Cristo e o que o povo é para cada um dos Amigos das crianças.

Naturalmente, não basta pisar o chão de Bucareste ou de Bangalore para que surja tal acontecimento. Um Amigo das crianças, quando chega, não chega ao povo dele. Ele se torna este povo. Isso é a constante tensão da vontade dele, é a esperança do amor dele. A aliança que o Espírito de Deus realiza entre cada um dos Amigos das crianças e aqueles que se tornam seus amigos vai se concretizando com o tempo, numa história comum, no descobrimento de que a história do outro - mesmo se tantas circunstâncias fazem com que pareçam bem diferentes - são antologicamente idênticas e que eu compartilho com todo homem uma mesma comunidade de destino que faz com que sejamos realmente um corpo, o Corpo de Cristo.

É fácil jogar bola com um menino – mas a gente não veio para ser professores de esportes –, é mais ou menos fácil fazer tramites para alguém achar trabalho – mais não somos assistentes sociais –, contudo, é difícil praticar essa hospitalidade do coração que é o sentido mesmo da nossa missão e manifesta tão bem o mistério do Esposo e da esposa. Escutamos as palavras do padre Giussani:

«Os outros devem ser “acolhidos” dentro de nós: a hospitalidade consiste em permitir a um outro fazer parte de nossa vida. Mas cuidado! A hospitalidade é o maior sacrifício depois do dom da vida. É por isso que fica tão difícil para nós dar realmente a hospitalidade, e dar a hospitalidade a nós mesmos. Fazer com que os outros se tornem uma parte de nossa vida, isso é a verdadeira imitação de Cristo; Ele nós acolheu na vida Dele a ponto de nos fazer membros do corpo Dele. O mistério do Corpo de Cristo é o mistério do acolhimento da nossa vida na dele[1].»

Nesta hospitalidade radical do pobre, da criança, de toda pessoa humana que toma a forma da Encarnação, de repente, a presença divina se manifesta. Quando acolhemos o homem no mais profundo das nossas entranhas de homem, quando o acolhemos como membros do nosso corpo, nós encontramos Deus: “Achar-se em casa no coração de um outro significa experimentar concretamente o amor, o amor de um irmão ou de uma irmã em Cristo. E experimentar o amor de um outro significa tomar consciência de que Deus nos ama. Pois é através do outro, o nosso próximo, o nosso irmão, que podemos começar a compreender o amor de Deus[2].”

Não temos palavra para expressar esta chispa que arde o nosso coração. Encontramos Deus carregado do peso da nossa humanidade, é tudo! É a razão pela qual Pontos-Coração é uma aventura que alguns poderiam qualificar de perigosa. Pois, como toda visita de Deus, como tudo surge de uma plenitude, é um convite a mais. Aquele que percebeu o rosto de Deus não pode mais descansar. Só uma nova visita da graça pode satisfazê-lo; só a fidelidade à aliança que Deus criou entre nós e o povo dele. O Verbo não esposou a nossa humanidade como se fosse uma brincadeira. Ele não a esposou por apenas um tempo. Ele se deu em comunhão. Ele se dá em comunhão. Ele se dará em comunhão. O homem que esposa um povo fica como que marcado para sempre do sinal deste povo e, reciprocamente, lhe dá a cor, o rosto do seu amor. Ele vai ter que se deixar comer inteiramente!

(1)Luigi Giussani - Le rique Educatif Nouvelle Cité, Paris, 1987 pp 18-19

(2)Catherine de Hueck - O Evangelho sem Restrições.


Voltar para o início