• 30 de junho de 2016
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Última Carta aos Padrinhos de Duarte

Caros padrinhos e benfeitores,

Desta vez, escrevo-vos de Portugal, pois já me encontro em terras lusas há três semanas. Assim sendo, esta é uma carta conclusiva, na qual vos quero falar um pouco do tempo da despedida no Uruguai, e do seu consequente regresso. Talvez alguns se recordem, que antes que partisse para a Argentina, foi celebrada uma missa de envio na Igreja de Santo António de Lisboa, presidida pelo Frei Sales e pelo Padre Arnaud. Se houve uma celebração de envio, também teria que haver uma de despedida. Tive o privilégio desta eucaristia ser celebrada no dia 25 de Maio, nas vésperas de Corpus Christi. No tempo que a precedeu, a nossa comunidade convidou bastante gente, para um lanche partilhado no salão contíguo ao Ponto- Coração. Estiveram presentes a comunidade paroquial, os amigos do bairro, alguns membros do movimento católico Comunhão e Libertação (com o qual mantinha assíduo contacto) e pessoas de outras partes de Montevideo. Como podem ver, o que não faltou foi a comida sobre a mesa, pois todos trouxeram algo para partilhar.

JPEG - 16.2 KBLanche partilhado com a comunidade paroquial, amigos do bairro, e de outros bairros de Montevideo

JPEG - 13.1 KB Daniel Astiarzán, tocando e cantando o tango “A orillas del Olimar”, acompanhado por Sulema (à esquerda) e Raquel (à direita).

Um dos nossos vizinhos, Daniel Astiarzán, decidiu compor um hino para Pontos-Coração e apresentá-lo. Depois de o repetir várias vezes, tocou tango e música folclórica do Uruguai. É surpreendente ver como a música é algo tão importante no dito país. Já o tinha notado durante o Natal, quando visitámos o Senhor Carlos e Gladys Aparício. Eles tiveram dezoito filhos, dos quais dezasseis estão vivos e continuam a frequentar a sua casa, principalmente durante as épocas festivas. A casa estava a abarrotar, com os filhos, os netos, os bisnetos, os sobrinhos e os cunhados…quase não havia espaço; e por isso, após a ceia, colocaram as cadeiras em “U”. No momento oportuno, quando se fez silêncio, o Senhor Carlos abraçou a sua guitarra, e com um ritmo bem pautado e uma teatralidade que traduz o que canta, deu som à guitarra.

Depois de alguns temas, juntaram-se-lhe alguns dos seus filhos e cantaram a “Luna Tucumana” de Mercedez Sosa (1) . Depois pediram-nos a cada um de nós que cantássemos uma música do nosso país. A Carole cantou “Non, rien de rien” de Michel Vaucaire; e eu cantei “ A Gaivota”, de Alexandre O’Neill. Foi um momento de grande beleza, no qual nos sentimos verdadeiramente em família. No dia da missa de despedida, dois dos filhos do Sr. Carlos, a Carina e o Gerardo, estiveram presentes, e tocaram no coro da missa, juntamente com os membros de Comunhão e Libertação. A missa foi presidida pelo pároco o padre William, e pelo padre Sebastian (um sacerdote amigo).

JPEG - 14.2 KB Padre William (à direita) e padre Sebastian (à esquerda) durante a Eucaristia.

A compreensão de um carisma

Um encontro com uma senhora do bairro, fez-me compreender mais do que nunca o carisma de Pontos- Coração. O nascimento desta mulher, é um milagre, visto que a sua mãe, estando grávida dela e da sua irmã, decidiu abortá-las. Uma das bebés morreu, e a outra sobreviveu, e foi criada pela mãe, que a tratou sempre com severidade. A filha cresceu e tornou-se uma mulher, por certo amargurada, visto que o seu sofrimento não se limitou à sua infância. Depois de casada, raptaram-lhe as suas duas filhas, no tempo da ditadura (2), das quais não sabe o paradeiro. Por fim, o único filho que lhe resta é toxicodependente e tentou incendiar a sua casa. A relação da nossa comunidade com esta senhora não começou por ser propriamente amistosa, pois estava revoltadíssima que fôssemos ocupar aquele lugar e os seus respectivos salões, outrora, usados como um refeitório que dava comida às pessoas mais pobres do bairro. Para além da incompreensão, também lhe parecia suspeito, que os novos residentes da casa fossem estrangeiros, e não falassem bem castelhano.

Mas com o tempo, fomo-nos abeirando dela, cumprimentando-a e perguntando-lhe como estava; e de um momento para o outro, a relação mudou drasticamente, começando a visitar-nos na nossa casa com muita assiduidade. Uma vez, encontrando-me a fazer o pão durante a tarde, ouvi bater à porta, e abrindo, deparei-me com ela. Trazia vários livros de receitas de culinária que me queria oferecer (pois sempre que nos visitava vinha carregada de prendas). Como me encontrava a fazer o pão, disse-me enfaticamente: “ Ah, podes explicar-me como fazes o pão? Já comi o que vocês fazem e é muito bom!“ Com certeza!”- Respondi. “Mas será que te vais lembrar de todos os pormenores?”. Após uma curta pausa, exclamou: “Tens razão, jamais me lembrarei!”- Concluiu com humildade. Propus-lhe: “Queres que te escreva a receita?”. “Sim! Muito boa ideia!”. Anuiu a mulher com um sorriso de orelha a orelha. E enquanto pensava nas proporções de água e farinha que iria indicar, lembrei-me que a senhora era analfabeta. Notei também que me olhava com a pureza de uma criança, sedenta que lhe ensinasse algo, agradecida pela atenção prestada. O seu desejo era, acima de tudo, o de se sentir acolhida pelo outro; e por outro lado, verificar o quão importante era para mim (pois eu estava ali a “gastar” o meu tempo, ouvindo-a e ensinando-a a fazer pão).

Muitas vezes, antes de sair em missão, pensava que a caridade tinha que manifestar-se sempre nos feitos grandes e apoteóticos. Dizia: “Quantos adultos, crianças, e doentes iremos consolar? Quantas actividades e iniciativas?” Como se o número, se sobrepusesse à pessoa, à acção, à intenção que a moveu. Agora vejo, com muito mais clareza, que o Espírito de Deus se manifesta também na simplicidade do quotidiano. Ser simples. Como é difícil para o coração do homem despojar-se de si, ao ponto de ser um reflexo puro da bondade do criador. E no entanto, as crianças e os jovens que visitei no Cottolengo de D. Orione irradiavam essa luz, que se traduzia numa alegria espontânea e numa veracidade incontestável.

JPEG - 15.3 KB Última visita ao Cottolendo de D.Orione, na companhia dum dos seus pacientes.

Estas memórias, desejo guardá-las sempre no meu íntimo, e peço à Virgem Maria que me ajude a conservar no coração estes acontecimentos. É meu desejo entrar posteriormente num mosteiro de clausura da Família Monástica de Belém, da Assunção da Virgem e de São Bruno. Foi no silêncio, na oração contínua, e na vida comunitária, que encontrei a Cristo de uma forma eminente, e assim sendo, gostava de poder consagra-me deste modo a Deus. Não penso fugir do mundo, pois todos aqueles com os quais me cruzei nas sendas da vida, acompanhar-me-ão, quando cruzar o umbral do mosteiro; família, amigos, colegas, professores, crianças, doentes e tantos outros. E a todos vós, caros padrinhos, que me acompanhastes com tanta fidelidade nesta curta, mas intensa missão, agradeço-vos com todo o meu coração. Rezem por mim, porque eu rezarei por vós. E espero que, um dia nos encontremos todos no Céu, no gozo da Santíssima Trindade.

JPEG - 17.3 KBKelsey, durante a missa de despedida com várias crianças do bairro.

P.S. - Gostaria ainda de vos convidar para uma missa de acção de graças pelo regresso da missão, que terá lugar no Convento São Domingos de Benfica (Rua João de Freitas Branco, 12, 1500-359 Lisboa) às 12h00 do dia 3 de Julho. O convento está a um passo da estação de metro do Alto dos Moinhos. Em caso de dúvida consultem o croqui, que está abaixo. Conto com a vossa presença.

JPEG - 25.9 KB

1 Cantora folk argentina, muito conhecida em toda a América Latina. Carinhosamente chamada «La Negra» (devido ao seu cabelo preto e à tez morena) Sosa foi igualmente chamada de “voz de uma maioria silenciosa”, tendo sempre lutado pelos direitos dos mais pobres.

2 O regime cívico-militar do Uruguai (1973-1985) foi uma ditadura que governou o país por doze anos, de 27 de junho de 1973 (após a golpe de Estado de 1973) até 28 de fevereiro de 1985. Durante este período, mais de cento e setenta pessoas desapareceram e outra centena foi aprisionada.


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