• 17 de julho de 2017
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Terceira Carta de Sthefane em missão no El Salvador

Olá padrinhos, familiares e amigos, Que alegria parar um pouco o meu dia corrido pra escrever mais uma carta pra vocês. Para mim esse momento é uma graça de Deus, pois posso refletir com calma sobre tudo o que estou vivendo aqui nessa missão e ver quanto o amor de Deus é simples e como ele não se cansa de nos amar. Tenho o coração repleto de gratidão, pelo apoio que vocês estão me dando. Não só financeiramente, mas nas orações e nas mensagens positivas que recebo. São essas pequenas coisas, que me ajudam seguir adiante aqui.

“Juntos reconhecemos que somos responsáveis uns pelos outros, que esse vínculo vem de Deus, e que é um dom. Foi ele que nos escolheu e nos chamou a viver junto em uma aliança de amor e cuidado mútuo.” (Jean Vanier, Comunidade lugar de perdão e de festa). Vou começar essa carta compartilhando um pouco com vocês, sobre a despedida dos meus irmãos Emily (EUA) e Pedro (França). Eles fizeram um ano e oito meses de missão e um ano e seis meses de missão. Foi uma graça de Deus, viver esse tempo de despedida em comunidade. Ver a gratidão das pessoas, pelo tempo que eles ofereceram aqui. Foi algo indescritível. As pessoas agradeciam por coisas que para nós, talvez sejam muito simples, mas para eles foram momentos inesquecíveis. Entre as milhares de frases que pude escutar, nas inúmeras visitas que fizemos, escutei frases como “Muito obrigada por fazer minha mãe rir”, “Muito obrigada por vir me visitar sempre”, “Muito obrigada por brincar comigo todos os dias, vou sentir tanta saudade disso”, “Muito obrigada por me ajudar nos meus deveres de inglês”, “Muito obrigada por ter doado sangue para minha filha”, “Muito obrigada pelo bolo de aniversário que eu ganhei, foi o único que eu tive”. Pude ter mais consciência do que eu já tinha, sobre a importância da amizade de Pontos Coração com as pessoas daqui. Foi muito lindo ver a entrega desses meus irmãos esses cinco meses que vivemos juntos; compartilhamos momentos intensos de amor e perdão, quanto ão crescimento, quanta a aprendizagem. Agradeço a Deus a oportunidade de conhecer pessoas de almas tão lindas e corações tão nobres. JPEG - 280.2 KB Pedro, Matias, Emily, Charo, eu e Vicente

“Não se trata apenas de deixar seu país e sua família, mas, deixar todos os preconceitos e ideologias que deformam, reduzem e endurecem tudo o que eu vejo. O carisma é a fonte de um novo olhar, que me permite amar o que é, muito mais do que a ideia que eu faço.” (Pe. Jacques Bagnoud)

Quero compartilhar hoje com vocês sobre o nosso apostolado em “Concepción”. No qual visitamos pessoas em situação de prostituição. Começo dizendo que esse apostolado é extremamente difícil e triste, mas nossa presença nesse lugar é muito importante. As pessoas que trabalham nesse lugar tem uma visão muito triste da vida. Uma visão de que não existem mais pessoas boas, que não existe mais respeito, que não existe gratuidade, que não existe mais em quem confiar. Essa situação é de doer o coração. E nós na nossa simplicidade, tentamos mostrar que a vida não é bem assim.

Temos um amigo, que se chama “Pepita”, tem 37 anos, é homossexual, está em Concepción desde os seus doze anos de idade. Antes de chegar em Concepción tinha uma vida tranquila, vivia com seus pais e seus irmãos. Ele era extremamente apegado com o pai, mas o pai morreu quando ele tinha apenas nove anos. Seu sofrimento e sua perturbação foram tão grandes, que ele foi morar na rua. Nesse período bem difícil, que estava morando na rua ele foi abusado sexualmente mais de uma vez, por outros moradores de rua. Também foi atropelado. E quiseram o matar. Certo dia, a dona de um bar (prostíbulo) em Concepción o encontrou na rua e quis ajudar, com isso levou “Pepita” que tinha apenas doze anos para viver nesse bar. Desde então, “Pepita” mora e trabalha nesse local. A senhora que o resgatou da rua já faleceu e agora quem é responsável por esse bar é o filho, que também é homossexual. Certo dia, quando fomos visitar “Pepita” com uma das Irmãs, ele nos disse que tinha vontade de sair daquele lugar e de mudar um pouco de vida. Mas disse que não podia fazer isso pela dívida que tinha com essa família que o resgatou da rua e “salvou sua vida”.

Nos pulsos de “Pepita” existem muitas marcas de cortes, marcas de um coração que não sabia mais enfrentar os desafios da vida. Mas hoje, mesmo diante toda história de dor e sofrimento, ele tem confiança em Deus. Faz pouco tempo que “Pepita” fez aniversário, então o convidamos para ir almoçar conosco e celebrar o dom da sua vida. Ele estava feliz da vida, foi um momento muito especial, porque ele nunca sai desse lugar onde mora, não tem dia de folga. Mas nós pedimos a seu patrão e ele o liberou para irmos comer e celebrar um pouco este dia. O levamos em um restaurante bem simples, mas parecia que era o melhor restaurante da face da terra. Foi nesse dia, que ele nos contou toda sua história de vida com mais detalhes. Quando voltamos para casa ele nos disse que foi o dia mais feliz da sua vida e nunca mais ia esquecer esse dia, nos agradeceu muito pela nossa amizade e pela nossa companhia. Agradeci muito a Deus por esse momento que tivemos com “Pepita”, seguimos nossa amizade com ele, com nossa discrição e simplicidade, tentando cada vez mais mostrar o amor e a misericórdia que Deus tem por cada um de nós.

“Não acredito no amor sem sofrimento... Mas Deus dá a coragem em proporção ao nosso sofrimento. Ele não nos abandonará.”

Quando cheguei aqui em El Salvador, minha primeira visita foi para celebrar o aniversário de um vovozinho que mora bem perto da nossa casa. Essa família me marcou muito, pela fé e pelo amor mútuo que eles têm entre si. Esse vovô se chama José, mas todos o conhecem por “Don Cruise”, ele já tem seus noventa e poucos anos e sofre de Alzheimer. Sua esposa se chama Maria, mas todos a chamam de “Bartoloma” (niña Bartoloma). Com eles vivem dois netos, um de vinte e poucos anos, que quase não está em casa, porque está sempre trabalhando e o outro tem quatorze anos, Karlos (Karlitos). Estamos muito amigos de Karlitos e seus avós, a quem ele os chama de pais. Karlitos perdeu a mãe, era muito pequeno ainda, o pai (filho de Don Cruise e dona Bartoloma) se casou com outra mulher e o deixou com os avós. Dona Bartoloma, me contou uma vez que ele sofre muito com a perda da mãe, sempre tem muitas perguntas para a avó sobre a mãe. Apesar de todo esse sofrimento, esse menino de ouro quando não está na escola, dedica todo seu tempo para ajudar a avó, cuidar do avô.

Eles passaram por um momento muito difícil, pois mais ou menos um mês atrás, Don Cruise, piorou muito. A cada visita que eu fazia para eles, podia vê-lo regredir. Para nós, só nos restava rezar. Muitas vezes não sabia o que dizer para confortar Karlitos e sua avó. Dona Bartoloma, gosta muito de falar e tem uma alegria ímpar, mas por esses dias quase não conversava. Porém ela nunca deixou de acreditar que ele iria ficar bem, sempre foi fiel a suas orações e a sua dedicação ao serviço de Deus. Mesmo com toda essa correria e com o esposo super doente em casa, ela saía todos os dias de tarde para rezar o terço na casa dos vizinhos que a pediam. Ela não duvidou que Deus levantaria outra vez seu esposo da cama.

E eu não tenho dúvidas que foi graças a fé dela, que ele conseguiu se recuperar. A alegria voltou a reinar dentro daquela casa outra vez. Quando fui visitá-los novamente, que entrei na casa e pude ver Don Cruise sentado na cama conversando e contando suas histórias, fazendo Dona Bartoloma morrer de rir, eu não pude acreditar. Vocês não tem noção do tamanho da minha felicidade por ter presenciado esse momento. Depois, em minhas orações agradeci infinitamente a Deus, pela recuperação da saúde desse homem. Também pedi pra que me ajudasse a confiar Nele assim como Maria confiou e assim como nossa querida Dona Bartoloma confiou. Que Graça!

JPEG - 267.3 KB Meu querido amigo Don Cruise

Começo a me despedir, porque se continuo escrevendo, vocês vão acabar recebendo um livro no lugar de uma carta. Peço que continuem rezando por mim, pela missão, por nossos amigos aqui do bairro e pela Obra Pontos Coração, que em sua simplicidade faz a diferença na vida dessas pessoas. Porque são essas orações que nos sustentam a cada dia e nos fazem seguir em frente com amor no coração.

Um abraço bem apertado, recheado de amor e saudade.

Com carinho,

Sthefane Cardoso


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