• 18 de maio de 2017
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Segunda Carta aos padrinhos de Sthefane no El Salvador

Queridos padrinhos, familiares e amigos,

Como vocês estão? Espero que todos estejam bem. É com muito carinho que escrevo minha segunda carta para vocês. Já se passaram 4 meses que estou aqui nessa linda aventura com Pontos Coração. Como o tempo está passando rápido. Tenho vivido momentos muito lindos e profundos. É difícil expressar em palavras o que eu sinto em meu coração. Queria dizer a todos vocês, que estou extremamente feliz de estar aqui nessa missão. A cada dia que passa tenho mais certeza de que Deus me enviou ao mundo para estar aqui por esse pequeno período da minha vida. Sinto meu coração tão completo e tão cheio de amor, que às vezes é difícil explicar. É como diz a canção “meu coração agora vive em paz.”

“Uma vida bem simples de irmãos imersa no amor bem simples de Deus.” (Pe. Thierry)

Começo contando a vocês que a minha comunidade mudou um pouco. Um irmão de comunidade, Thomas, regressou a França. Chegou um polonês, chamado Matias e também uma argentina, chamada Charo. Agora, somos 5 nacionalidades, Estados Unidos (Emily), França (Pedro e Vicente que é o nosso visitador), Brasil, Polônia (Matias) e Argentina (Charo). Viver em comunidade, com pessoas de outros países de culturas completamente diferentes nem sempre é fácil, mas é uma experiência incrível, que está me fazendo crescer muito, me ajuda a sair do meu comodismo e ir adiante. Nós somos completamente diferentes e isso é muito bom, porque essa nossa diferença nos dá equilíbrio. Eu estou muito feliz por estar com essas pessoas que Deus confiou a essa comunidade. É engraçado porque antes eu achava que nunca iria ter irmãos e agora tenho 5. Tenho 5 irmãos por pouco tempo, pois Emily e Pedro se vão em 11 de Junho, fico um pouco triste de pensar em me despedir deles, porque estamos juntos desde que cheguei aqui. Mas fico feliz, por ver o lindo tempo que eles passaram aqui e por ter compartilhado comigo tudo que aprenderam nesse tempo de missão. Aprendi muito com eles.

“Alguém mais amoroso que eu me pressiona a amar.”

Gostaria de contar para vocês sobre um amiguinho que eu tenho aqui, que mora na linha do trem. O nome dele é Diego, ele tem 5 anos, a primeira vez que o vi foi em “La Tiendona”, um lugar bem grande que vende frutas e verduras. Ele estava correndo de um lado para o outro, enquanto sua família estava vendendo algumas verduras, mas quando nos viu veio direto ao nosso encontro nos abraçar. Essa atitude dele logo me encantou. A cada sábado que vou à linha do trem brincar com as crianças, sempre passo em sua casa para chamá-lo para brincar com a gente e com as outras crianças da linha. Mas ao final é sempre muito delicado, por que a maioria das crianças está em uma parte da linha que ele não pode ir, por causa do limite que os “maras” (bandidos) estabelecem aqui. E sempre um de nós, voluntários, fica brincando em frente da casa dele. Uma vez que fui chamá-lo para brincar me senti bastante desconfortável, porque quando cheguei, ele estava fazendo suas necessidades fisiológicas na linha do trem, porque em muitas “champitas” (casas de telhas de alumínio) aqui não tem banheiro. Para mim, presenciar essa cena me cortou o coração. Porém, esses pequenos problemas não tiram a alegria que ele carrega dentro de si.

Quando ele nos vê chegando pra brincar fica feliz da vida. Como vocês podem imaginar, essa família é bem pobre financeiramente, mas Diego tem um coração tão nobre, tão valioso, que ele sem saber tem me ensinado muito. Certo dia, enquanto brincávamos ele olhou bem profundo nos meus olhos, logo após saiu correndo para falar alguma coisa no ouvido da sua avó, depois entrou correndo dentro de casa e veio com uma laranja na mão, para me dar, eu fiquei totalmente sem jeito, porque sei que essa laranja poderia fazer falta em sua casa e minha primeira reação foi dizer que não precisava que ele poderia comer. Então, ele disse que era pra eu aceitar, por favor, que aquela laranja era um presente pra mim. Diante dessas palavras, como poderia eu recusar esse presente? Peguei a tão especial laranja e continuei a conversar com ele, até que ele me perguntou: você não vai comer a laranja? Disse que não, porque não tinha comigo nada para cortar a laranja, para que eu pudesse comer. Depois disso ele saiu correndo novamente entrou na casa e voltou com uma faca toda suja, e para não me entregar faca suja, começou a esfregar a faca na roupa pra limpar para que eu finalmente pudesse comer o meu tão especial presente. Para mim, Diego é um grande professor. Ele tem me ensinado muito sobre o amor simples, o amor puro, o amor gratuito. A cada novo encontro eu recebo dele esse amor. O amor que dá tudo e não espera nada. É exatamente isso que me faz enxergar e valorizar a beleza dos momentos mais simples que muitas vezes eu não podia ver.

JPEG - 179.4 KB Diego é o menininho que está sem camisa na frente do meu irmão de comunidade, Matias.

“É preciso amar até entregar-se. É tão urgente quanto uma transfusão de sangue em um corpo que se esvai.” (Pe. Thierry)

Quero compartilhar com vocês também, sobre outra amiga muito, muito, muito levada, mas muito especial e dona de um coração mais especial ainda. Também tem 5 aninhos e se chama Karla, mas todos no bairro a conhecem como Karlita. Karlita está sempre conosco, porque ela praticamente mora com a bisavó, que vive na mesma passagem que a gente. Ela vem de uma família com alguns problemas, a mãe dela que se chama Esmeralda perdeu a mãe bem cedo e foi criada pela avó (dona Mari) e pelas tias Glória e Marina. Esmeralda, talvez por sua história de vida que também não é fácil, não dá muita atenção para Karlita. Um dia quando saía da missa com Karlita, ela viu a mãe na rua com o irmãozinho dela (Karlitos), e começou a gritar “boa noite mãezinha, até amanhã, beijos”. Mas Esmeralda nem olhou para a menina, apenas respondeu “boa noite”. Um dia desses, estava conversando com Marina (tia de Esmeralda), que é uma grande amiga nossa, ela estava me contando que Karlita foi perguntar, porque a mãe dela tem um coração tão duro. E o que me comove nessa história toda é que Karlita sempre quando vem na casa, no momento que estamos rezando o terço, ela sempre quer rezar e sempre a intenção dela é pela mãe, pelo irmão e pelo priminho Fernando (que acabou de ser abandonado pela mãe, e a avó Marina que está cuidando dele).

E isso não é tudo, muitas vezes quando ela chega aqui em nossa casa, ficamos sempre atrás dela porque ela tem muita energia e adora fazer travessuras, como toda criança. Muitas vezes ela chega e de repente some, fico louca a sua procura, pensando que está fazendo mais uma de suas travessuras. Mas quando começo a procurar e chego na capela, ela está de joelhos em frente ao santíssimo rezando, ela escuta os ruídos que eu faço ao entrar, olha pra mim e pede pra eu fazer silencio que ela está rezando. Nesse momento eu me sinto tão pequena, tão sem saber o que fazer, tenho a sensação que a criança na situação sou eu. Suas palavras, suas atitudes e seus sorrisos são tão sinceros que me ensinam como é amar verdadeiramente sem nenhuma máscara. Como essa pequena (grande) menina é um grande exemplo de fé para mim, ela tem me ensinado muito com essas atitudes. Pra mim ela é como se fosse da nossa família aqui, nos dias que saímos para descansar sinto saudades. Mas quando voltamos é sempre uma alegria e ela sempre está de braços abertos a nos receber.

JPEG - 157.7 KB Karlita celebrando o aniversário do irmão, Karlitos em nossa casa

Aqui somos marcados por diversos rostos muito especiais. Em meio há tantos problemas, tantas dificuldades, temos o prazer de conhecer pessoas tão preciosas como Diego e Karlita. Há muitas outras preciosidades que vivem aqui bem pertinho da gente. Queria eu apresentar todos esses seres cheios de luz pra cada um de vocês. Mas, como no momento isso não é possível, apresento por essas simples cartas que vou enviando a vocês e peço que em suas orações rezem por essas pessoas e essas famílias. Continuo rezando por cada um de vocês todos os dias. Que Deus continue protegendo e abençoando a vida de vocês. Paz e bem!

Com amor e carinho,

Sthefane Cardoso


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