• 3 de março de 2017
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Primeira carta de missão de Sthefane no El Salvador

El Salvador, 1° de março de 2017

Queridos padrinhos, familiares e amigos,

É com grande alegria que escrevo a todos vocês!

Quero começar esta carta agradecendo a você padrinho/madrinha por tudo que está fazendo por mim, e por essa linda missão. Sou eternamente grata a Deus pelo dom da sua vida e por ter oportunidade de trazê-lo dentro do meu coração para esta missão. Nada disso seria possível sem sua ajuda. Diariamente penso em vocês e rezo pela vida de cada um, peço a Deus que continue sustentando o sim de vocês porque é esse sim que ajuda sustentar o meu todos os dias. A cada lugar que vou visitar levo cada um em meu coração. Muito Obrigada por estarem assumindo essa missão comigo!

Nesta primeira carta, venho abordar com vocês, um pouco de como foi minha chegada, do meu dia-a-dia, minhas atividades, minha comunidade e minha vida de oração. Quando cheguei ao aeroporto de San Salvador, passei por uma situação que fiquei um pouco nervosa. Antes de sair do Brasil, o Pe. Arnaud me avisou que uma das coisas que teria que ter para entrar no país era o endereço de onde estaria indo, porque sem isso a imigração não me permitiria entrar no país. Pois bem, anotei todo o endereço e trouxe comigo, o problema é que o endereço não estava na minha bagagem de mão e sim na bagagem que tinha despachado. O rapaz que estava verificando meus documentos perguntou qual era o meu destino e eu não sabia responder, tentei explicar o que tinha acontecido, mas meu espanhol estava muito, muito ruim e ele não compreendia. Então, me recordei que tinha o endereço no meu e-mail, quando estava procurando o e-mail no meu celular, a bateria do celular acabou (imagine meu desespero), mas me lembrei de que tinha comigo um carregador portátil de celular e finalmente consegui passar o endereço para a imigração e entrar no país. Ufa!

Estavam me esperando no aeroporto minha irmã de comunidade chamada Emily (ela é Norte-Americana) e um casal Salvadorenho amigos de Pontos Coração, Stella e Mario. Fui extremamente bem acolhida por eles. Ao chegar a casa onde vivo, fui apresentada aos meus irmãos de comunidade Thomas e Pedro (ambos franceses), como são de cultura europeia a acolhida não foi tão calorosa como estamos acostumados. Porém, Pedro e Thomás, assim como Emily são pessoas muito boas, me ajudam muito e já os tenho como minha família aqui. JPEG - 157.4 KB

El Salvador é um país belo e repleto de pessoas acolhedoras. Recordo-me muito dos brasileiros e me sinto um pouco em casa. O que me deixou assustada neste país foi andar como pedestre nas ruas, porque as pessoas não respeitam a sinalização de trânsito e também ver boa parte dos policiais usando “touca ninja” (me disseram que usam por segurança, para não serem reconhecidos em suas vidas pessoais). Nos meus primeiros dias estava muito tensa com essas situações.

O Puntos Corazón onde vivo se chama Faustino Perez, está no centro da Colônia Dom Bosco, que está dentro da Comunidade Ibéria. Aqui temos casas que são de concreto e outras são de madeira e metal (as “paredes” das casas são telhas de alumínio), é uma comunidade marginal de San Salvador, o que me impressiona muito é que temos muito perto uma da outra duas equipes de marginalizados e infelizmente as pessoas que vivem de um lado não podem a ir a outro lado porque para eles é muito perigoso. Isso pra mim é muito triste, pois existem pessoas que vivem de um lado e não podem visitar seus familiares, pelo motivo que estão de lados opostos. Muitas vezes convidamos alguns de nossos amigos que vivem do lado oposto do nosso a virem a almoçar ou jantar em nossa casa e somente vem se algum de nós for buscá-los onde vivem. Pelo fato de Pontos Coração esta aqui há muitos anos, é muito respeitado e todos os missionários que vivem aqui podem passar de um lado para outro sem nenhum problema.

Nosso dia aqui é repleto de oração. Todos os dias fazemos oração pela manhã (Laudes), temos uma hora de adoração individual, rezamos o terço, fazemos oração no final da tarde (Vésperas), vamos à missa e antes de dormir fazemos nossa última oração juntos (Completas); todos esses momentos são compartilhados com meus irmãos de comunidade, exceto a adoração que fazemos individual. como havia citado acima.

JPEG - 101.3 KB Além da vida de oração nossos dias são extremamente cheios de atividades, nas segundas-feiras fazemos visitas aos nossos amigos que vivem aqui em nosso bairro, geralmente fazemos 3 ou 4 visitas neste dia, temos diversos amigos aqui e sempre quando estamos andando pela Colônia somos reconhecidos e cumprimentados, também nesse dia estudamos um texto em comunidade e partilhamos um pouco sobre o texto e também sobre nós, sobre como está a nossa vida, nossa missão; esta atividade é chamada Escola de Comunidade. Nas terças-feiras, nos dividimos em dois grupos e vamos para dois apostolados, um grupo vai visitar o Hospital Bloom onde tem crianças que tem câncer e o outro grupo visita mulheres que vivem a realidade da prostituição. Nas quartas-feiras temos em nossa casa uma tarde de permanência, aonde as crianças da Colônia vem brincar e passar toda tarde conosco.

As quintas-feiras é o nosso dia de descanso, esse dia é um dia livre, podemos ir para casa de algum amigo fora da Colônia, podemos ter acesso à internet, falar com nossa família, amigos. Quando chega sexta-feira, pela manhã voltamos para nossa casa e nesse dia vamos fazer visita a nossos amigos, como na segunda-feira.

Aos sábados nos dividimos em dois grupos novamente e um fica na permanência com as crianças na nossa casa, o outro vai brincar com as crianças que moram ao lado da linha do trem. Nos domingos, vamos a um bairro próximo chamado Independência, é um lugar como um grande campo de futebol onde se tem várias casas e muitas crianças, também nos dividimos em dois grupos, um grupo vai fazer visita aos nossos amigos que vivem lá enquanto o outro fica brincando com as crianças. Pela noite temos a nossa noite de comunidade, onde podemos ver um filme, conversar. Também temos uma noite de adoração com nossos amigos da paróquia todo primeiro sábado do mês e uma sexta-feira de cada mês tem a noite dos jovens onde recebemos em nossa casa alguns jovens que vivem aqui na Colônia, é uma noite muito agradável. Geralmente nossos dias são assim, mas às vezes acontecem imprevistos ou simplesmente parece que Deus quer mudar um pouco o rumo das coisas, isso pra mim é belo porque podemos ver que às vezes os planos de Deus não são os mesmos que os nossos e no final é sempre melhor o plano de Deus do que o nosso.

Primeiras Experiências

JPEG - 114.8 KB Aqui nesse bairro onde vivemos existem muitas crianças, e todas moram bem pertinho de Pontos Coração, algumas dessas crianças, mora ao lado ou em frente nossa casa. E aqui uma frase que o tempo todo é escutada saindo da boca das crianças é “dá-me água por favor”, nos meus primeiros dias ficava me perguntando o porque dessas crianças que vivem ao lado de Puntos ou em frente, vem aqui todo tempo pedir água. Não entendia nada, muitas vezes quando estamos almoçando ou jantando aparece alguém pedindo água. O meu olhar humano não conseguia compreender essa situação que se repete todos os dias. E Deus na sua infinita misericórdia pode me dar um olhar diferente para essa situação. Recordei-me da passagem da Samaritana que Jesus pede de beber a ela (Jo 4). Isso me fez refletir, que não é bem a água material que essas crianças nos pedem todos os dias a todo tempo a água que eles querem beber da água viva, a água que sacia nossos corações. Consegui entender que muitas vezes acabamos com essa sede que eles têm com um copo d’água e um tempo de atenção, quanto olhamos com ternura para eles, ou quando abraçamos e damos um pouco de carinho. Essa situação cotidiana sempre toca o mais íntimo do meu coração, porque muitas vezes sou eu que tenho sede e são eles que me dão de beber dessa água pura. É lindo, quando o dia aqui está um pouco difícil, e de repente aparece uma criança com um sorriso mais puro e os braços abertos pra me acolher, nesses momentos a sede o meu coração é saciada. Jesus tem sede, essas crianças tem sede e eu também tenho sede.

Todavia, já que estamos falando sobre crianças vou contar pra vocês um pouco das crianças do Hospital Bloom que tem câncer. Quando soube que um dos apostolados aqui seria no Hospital Bloom fiquei extremamente ansiosa, para conhecer, fiquei encantada só de escutar os meus irmãos de comunidade falando sobre como era esse apostolado. Quando cheguei lá, pela primeira vez, me senti travada como nunca me havia sentido antes. Vocês sabem bem como sou, quando chego a um lugar novo logo quero fazer amizades, trocar sorrisos com as pessoas, mas esse dia foi completamente diferente. Eu estava muito quieta e um pouco sem saber o que fazer na minha mente tinha várias perguntas, que não conseguia responder. Ao mesmo tempo me maravilhava como o ambiente tinha mudado desde o momento que chegamos, pois quando chegamos estava um silêncio ensurdecedor, conforme o tempo estava passando mais podemos ver sorrisos das crianças se divertindo com a nossa presença, podíamos ver também como as mães quando vão vendo seus filhos contentes com nossa visita automaticamente também vão deixando sair o semblante de cansaço e muitas vezes de tristeza para dar lugar ao sorriso. Quando estávamos voltando para casa, senti meu coração pesar tanto, e logo me veio vontade de chorar. Depois de chorar e me sentir um pouco aliviada, partilhando com Pe. Paul que é um consagrado de Pontos Coração, consegui compreender que nossa presença nada mais é que estar ao lado dessas pessoas que estão passando por um momento tão difícil em suas vidas. Assim como Maria esteve aos pés da cruz, ela não estava ali para tirar Jesus da cruz, ou algo parecido, estava para sofrer junto com ele e ser presente naquele momento tão difícil. Pra mim foi maravilhoso ter essa visão, porque às vezes pensamos em fazer coisas grandiosas demais, mas é bem mais simples que imaginamos, é bem mais “simples” do que eu imaginava.

“Semear, semear, semear, jamais coletar.”

Assim que cheguei aqui, fui fazer uma visita com Emily, a uma grande amiga de Pontos Coração há muitos anos. Senti-me, muito feliz e privilegiada de ter tido a oportunidade de ver logo que cheguei o novo rumo que sua vida estava seguindo. Essa amiga trabalhava há muitos anos com prostituição, e também há muitos anos recebe visita dos missionários que passam por aqui. Creio que por obra de Deus, ela teve um problema com as pessoas que estavam responsáveis do lugar onde ela estava trabalhando. E tomou a decisão de não querer mais essa vida para ela. Foi lindo a ver falando que, queria ter paz e que agora buscava uma reconciliação com Deus, que iria entrar na turma de catequese, porque sentia vontade de fazer a primeira comunhão e também ser crismada. Para mim foi um presente muito grande de Deus poder presenciar esse desejo de nova vida dessa amiga e também poder começar uma amizade com ela. É lindo poder ver como essa profunda amizade com outros missionários que passaram aqui, foram que como uma semente plantada, e agora eu posso ver o lindo fruto que se tornou. Me senti especial de estar presente nesse momento e ver que muitas vezes as pessoas vem aqui, estar presente um tempo de missão e não veem os frutos, sempre quem vê esses frutos são outros voluntários da missão, dessa vez fui eu que presenciei esse lindo desejo de vida nova em Deus.

Muito Obrigada por estarem comigo trilhando esse caminho!

Com amor,

Sthefane Cardoso


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