• 21 de maio de 2010
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Pontos Coração não é uma solução... é um pequeno sinal

Missa de envio, Noyon, 14 de setembro de 1996

Há apenas seis anos eu tinha diante de mim alguns jovens tremendo de medo, mas ao mesmo tempo cheios de coragem, prontos como vocês, para partir a um Ponto-Coração. Alguns deles iam para a Argentina, outros para o Brasil. Não sabiam o que iam viver, e nós tampouco. Eles iam atravessar como pioneiros os limites de dois bairros, os quais, muitas pessoas da cidade não se atreviam passar.

Hoje as coisas mudaram. Este ano, são aproximadamente cinqüenta jovens que deixarão a França para ir animar aproximadamente vinte Pontos-Coração. E de outros países também, outros Amigos das Crianças viajarão para ir às suas comunidades. E, em nossos fichários temos o nome de milhares de padrinhos, de amigos...e também em muitos países a Obra têm associações que a sustentam e também dezenas de artigos foram publicados nos jornais sobre Pontos-Coração, escritos em mais ou menos 20 línguas...e também tem bispos que nos solicitam...e também fomos premiados várias vezes... e ainda, vivendo a compaixão de maneira radical, dezenas de jovens tiveram as suas vidas transformadas.

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David e crianças, Manila

Tudo isso me alegra. Há seis anos eu jamais tinha imaginado tal desenvolvimento da Obra, jamais poderia ter pensado que ela seria conhecida tão rapidamente e tão apreciada por muitos. Jamais poderia ter pensado no impulso que a sua existência daria à minha própria congregação, nem imaginar as múltiplas amizades que ela nos ofereceu no mundo inteiro. Hoje não posso senão, dar graças a Deus por toda expansão que Ele deu à Obra, por toda fecundidade, por todo bem que os Pontos-Coração fizeram às crianças de nossos bairros, mas também, pelos Amigos das Crianças, por seus padrinhos e famílias.

Uma Obra tão frágil e tão jovem...

Porém, muitas vezes eu me sinto inquieto e com medo: esta rápida expansão e relativa popularidade podem ser um perigo terrível. Se poderia acabar pensando que Pontos-Coração é algo importante, que Pontos Coração é, como me falam às vezes, um “negócio que vai bem”. Se poderia esquecer que para nós, ir bem significa andar sobre as águas. Se poderia perder de vista que Pontos-Coração caminha sobre um fio suspenso entre dois abismos. E, sobretudo, se poderia esquecer que Aquele que dá a verdadeira fecundidade à Obra, é Deus e que tanto os Amigos das Crianças quanto aqueles que conduzem a Obra não são nada, ou, ao menos, pouca coisa.

São múltiplas as fragilidades de Pontos-Coração. Elas se originam da fragilidade dos Amigos das Crianças: eles são jovens, bastante inexperientes; estão longe de ter uma formação como havíamos sonhado que tivessem; muitas vezes são substituídos; muitas vezes cometem pequenos erros, não falam bem a língua das pessoas onde moram, se cansam às vezes da missão e fecham, muitas vezes, a porta da casa; têm uma saúde frágil... E quantitativamente falando, eles são um pequeno punhado como o dos discípulos do tempo de Cristo; em cada lugar os Amigos das Crianças são um número terrivelmente insuficiente para responder as múltiplas necessidades que eles encontram. Quanto ao fundador e a todos aqueles que o ajudam a dirigir a Obra, possuem meios que são ainda mais limitados. Muitas vezes eles ficam cansados, não conseguem estimular ou corrigir adequadamente os Amigos das Crianças; não se atrevem, talvez, a enfrentar os problemas mais sérios; às vezes são covardes demais e às vezes demasiadamente audaciosos; não procuram escutar o grito das crianças pensando já conhecê-lo; não rezam bastante e desperdiçam o tempo. Eles têm uma confiança limitada e falta a comunhão entre eles. No que diz respeito aos meios de ação da Obra, não são seguros: não se recebe renda, não se tem garantia de ter cada ano um mínimo de Amigos das Crianças. E para acabar, a segurança dos Amigos das Crianças não é muito certa. Nenhum deles tem guarda-costas, a não ser que considerasse seus anjos da guarda como tais. E a maioria dos nossos bairros são bastante perigosos: até a polícia tem medo de entrar ali. A esta descrição da nossa pobreza se poderia acrescentar – vocês podem imaginar – páginas e páginas. No entanto, para que serviria isto senão para argumentar esta proposta, cuja evidência é clara: a Obra é pequena, ela é infinitamente frágil e vive somente da sua confiança em Deus. E se alguém a admira, não se pode senão admirar nela a Bondade de Deus e o sustento que lhe dá a Virgem Maria. Além disso, tudo o mais é pouca coisa.

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Ana Paula

Em outras palavras, a Obra não pode pretender ser uma solução aos problemas tão graves da infância, do sofrimento e da desesperança. Ela não é um remédio para a aflição mundial. Ela é pouco eficaz. Então, o que ela é? Um sinal, um pequeno sinal. E os Amigos das Crianças não podem ter a pretensão de cumprir corretamente a sua missão, nem de ser personagens importantes ou heróis, mesmo se seus nomes figuram nos jornais. Quem são eles? Assim como o fundador, eles são pecadores que tentam responder, dia após dia, aos chamados de Deus, e viver cada vez mais da fé, da esperança e da caridade.

Pontos-Coração, sinal do poder de Deus na fragilidade do homem.

A Obra Pontos-Coração é tão frágil!... Mas, sem dúvida, esta fragilidade atrai Deus... Quando o Senhor se reúne no céu com seus ministros, nós O imaginamos dizendo: “Os pobres Amigos das Crianças são tão pequenos, tão vulneráveis nos seus bairros, são tão incapazes de amar de verdade e de dar frutos que devemos ajudá-los. Não podemos deixá-los sozinhos...” E Deus age: Ele ajuda os jovens a aprender as línguas; Ele decuplica as atividades de cada um; ao olhar dos Amigos das Crianças, a suas palavras Ele faz dar frutos que os ultrapassam – é suficiente, por exemplo, que uma Amiga das Crianças fale para uma jovem mãe que tem o desejo secreto de abortar: “Vou rezar pelo bebê que você carrega” para que essa mãe tome logo consciência da vida que está nela e desista, finalmente, de abortar; basta que outra Amiga das Crianças olhe com benevolência uma pessoa na rua e a cumprimente, para que ela redescubra a beleza da vida e renuncie à idéia de cometer suicídio, etc.

A única coisa que, de repente, poderia incomodar a Deus na sua bondade para conosco, é o orgulho, é crer que por nós mesmos podemos fazer algo, satisfazer as necessidades de nossos amigos. A única catástrofe que pode acontecer com a Obra é uma atitude de auto-suficiência da parte de seus membros. O que significa também que a única oração que convém para que a Obra permaneça o que é e cresça ainda mais – ela é tão esperada em numerosos países! – e, sobretudo para que ela dê frutos, é a oração para pedir a humildade. É também com essa única condição que Pontos-Coração permanecerá sendo um sinal: o sinal de que “Deus eleva os humildes, derruba os poderosos de seus tronos, sacia de bens os famintos, despede os ricos sem nada...” É com essa única condição que Pontos-Coração permanecerá a Obra de Maria e que Deus agirá à sua frente, como agiu à frente de Maria, sua humilde servidora.

Pontos-Coração, sinal do amor de Deus que se submete

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Michel Ciry

A Obra Pontos-Coração é o sinal de que Deus se glorifica na fraqueza dos pobres seres humanos, também é o sinal de que Deus se alegra na presença dos filhos dos homens. Quando um Ponto-Coração instala-se em um bairro, quando os Amigos das Crianças entram na casa dos nossos amigos, cada vez me parece que é o Mistério da Encarnação que se prolonga. E o mistério da Visitação! O Senhor estremece de alegria no coração daqueles que O levam. A Visitação é realmente um mistério de alegria para Deus! E Natal ainda mais: Deus conosco! Deus com os homens! Imaginem a alegria de Deus... Deus que se revela próximo, Deus que diz aos pobres: “Não temam! Eu lhes faço misericórdia. A Mim os ladrões não dão medo, nem os mentirosos, nem os violentos; eles têm um lugar na Minha casa; eles não estão fora do Meu coração! Que eles se atrevam somente a cruzar um olhar comigo, como Pedro depois do canto do galo, e que eles entrem.” Pontos-Coração é o sinal de que Deus não se afastou da vida dos homens, que Ele tem a última palavra sobre o pecado, que Ele não teme nada da aflição da humanidade, que Ele é verdadeiramente Aquele que lava os pés dos pequenos e purifica os seus corações. Pontos-Coração é, simplesmente, o sinal de que Deus ama os homens, que Ele tem uma predileção para aqueles que os próprios homens rejeitam, que Ele tem o nome de cada um gravado na palma de Suas mãos. Percebendo aos olhos dos Amigos das Crianças que eles têm importância, os vizinhos descobrem que são importantes para Deus. Isso, afinal de contas, é uma grande responsabilidade para cada um daqueles que são enviados. Amigos das Crianças, finalmente essa é a sua única responsabilidade: deixar o coração de Deus transparecer através de seu próprio coração. Se reconhecermos que Pontos-Coração é uma Obra de evangelização, o único meio que ela utiliza é: Amar. Amar de mãos vazias. Amar até o fim. Amar com total confiança.

Pontos-Coração, sinal da verdadeira fecundidade

Somos invadidos pelas cifras, pelas contas, pelos papéis, pelas propagandas. Somos atacados por aquilo que se vê, por aquilo que grita, que faz barulho. Nos deixamos impressionar por aquilo que custa, que brilha. Segundo tais critérios, Pontos-Coração não é nada. Ou ao menos assim o espero. O que Deus ama é aquilo que está escondido, que é pequeno, que não faz barulho. É difícil acreditar nisto: no mundo, tudo fala o contrário. A fecundidade não é a eficácia. A qualidade não é a quantidade. Pela sua aparência insignificante, Pontos-Coração quer testemunhar esta realidade que desafia a lógica comum, mas une-se ao pressentimento da verdade de muitos corações. Todavia, chegamos a este paradoxo: na medida em que Pontos-Coração se considere como poeira, como o retardatário de todas as ONG (Organizações Não Governamentais), de todas as obras sociais e de todas as associações de caridade, talvez seja muito. Mas só será muito, se permanecer sempre convencida de ser nada. Somente na medida em que os Amigos das Crianças souberem, tendo experimentado muitas vezes e dolorosamente, que eles por assim dizer, não podem mudar nada em si próprios nem ao seu redor, tornar-se-ão “todo-poderosos”: “Vocês farão milagres ainda maiores.” Na medida em que seremos mudos, impotentes como um cordeiro que é levado ao matadouro, seremos eloqüentes e fecundos.

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Batismo de Diego, Fazzenda do Natal

Durante a cerimônia do Batismo, o padre, fazendo a unção com o Santo Óleo, disse: “Vocês que agora fazem parte do Seu povo, que Ele lhes marque com o óleo santo para que permaneçam eternamente os membros de Jesus Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei.” Comprometendo-se com a Obra, vocês se associam de uma maneira muito particular à missão de Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei. Vocês não entram em um business associativo, vocês entram numa obra de salvação, uma obra de redenção em companhia de todos aqueles que já responderam sim à pergunta: “Você quer?” do Único Amigo das Crianças. A nova aliança que por meio de seus compromissos, vocês selam com Cristo, faz de vocês sacerdotes – na medida em que a sua principal missão é entregar-se ao Pai para reconduzir-Lhe, todos os seus filhos dispersos – faz de vocês profetas – na medida em que a sua vida deve gritar Deus para todos – faz de vocês reis – na medida em que vocês experimentam nos seus corações e nos seus corpos a submissão de servidores. Ou seja, este engajamento, mesmo temporal, aprofunda o seu compromisso batismal e lhes ajuda a realizar o seu destino de discípulos de Cristo. Que Maria, Esposa do Espírito Santo e Mãe da Compaixão, lhes guarde neste caminho de felicidade, do qual ela mesma nunca se afastou.


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