• 18 de junho de 2010
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Pontos-Coração? Um mistério de Visitação

Missa de envio - Ourscamp, 29 de agosto de 1992

Queridos irmãos e irmãs, Durante minha última estadia no Brasil eu tive a alegria de encontrar o diretor do seminário propedêutico de Salvador. Ele teve a bondade de me dizer: “Quando eu venho no Ponto-Coração, é para mim como um banho no Evangelho. Tenho a impressão de encontrar-me entre duas páginas do Evangelho...” Ele não foi mais adiante: está na página das Bem-Aventuranças, na página da narração da Agonia, ou na página da Ressurreição do Nosso Senhor?... Talvez um pouco de todas essas ao mesmo tempo. Há pouco tempo, um dos nossos jovens Amigos das Crianças, voltando do seu Ponto-Coração, me confiava mais ou menos isso: “Todo esse ano não me pareceu fazer outra coisa senão viver o Evangelho. Eu era o discípulo perto do Mestre. Com Ele, eu andava nas ruas e nos vilarejos, com Ele acolhia as crianças, com Ele eu me inclinava aos doentes e aleijados, com Ele talvez curava alguns corações. D’Ele, às vezes eu tinha uma boa aula, mas dEle eu recebia, cada dia, a comida que me permitia ir mais longe. Se o senhor soubesse o quanto senti Ele próximo de mim! É mesmo, Ele mora no nosso bairro ”. Podemos dizer muitas coisas de Pontos-Coração e não esgotar o assunto. Com tais considerações, somos convidados ir logo ao essencial: um ano em Pontos-Coração, é um ano vivendo o Evangelho, um ano que não acaba quando passaram 365 dias, mas que leva mais longe ainda no seguimento de Jesus. Um ano perigoso porque ele nos mergulha na lógica das Bem-Aventuranças tão contrária a lógica desse mundo. Muitas vezes se diz que o Evangelho é o livro dos encontros. Poderia se dizer a mesma coisa de Pontos-Coração. Pontos-Coração é um momento de encontros. Não encontro de números e de dados sociológicos, não encontro de casos e de situações terríveis, mas encontro de pessoas, encontro de corações. É por isso que nosso próprio coração, que deseja tanto o amor do outro, a comunhão com o outro, tem tanta vantagem nos Pontos-Coração.

ENCONTRO PRIMEIRAMENTE COM DEUS, COM O PAI, COM JESUS, COM O ESPÍRITO que nos conduz e nos inspira. Todo mundo concorda para dizer que Pontos-Coração é em primeiro lugar um ano espiritual, é um grande retiro que cria em nós o « novo homen » que somos chamados a tornar-nos. Encontro que cada dia, acontece na Eucaristia, na adoração silenciosa, no canto do Oficio, mas contínua, se acha de novo, se desenvolve nas estreitas vielas da favela, no rosto dos pequenos que pulam nos nossos braços, nessas confidências dolorosas que nos faz esta mãe abandonada por o seu marido. É uma oração que não é separada, que não é fechada, mas que cada dia unifica maravilhosamente todos os acontecimentos do dia, e nos ensina a viver em todas as circunstâncias com Jesus, a encontrar Ele sem cessar. É uma oração que nos faz pular de alegria, é uma oração que nos molda, é uma oração que nos faz descobrir novos horizontes, é uma oração de agonia, é um canto de ressurreição. Quando se decide viver o Evangelho, é o Evangelho todo que se é chamado a viver. Quando se inicia a rezar, são todas as orações de Jesus que, um dia ou o outro devem atravessar nosso coração. A condição para permanecer em Ponto-Coração, é de ser fiel até o fim na oração de cada dia. Se, se escapa da oração, se escapa do Evangelho e se escapa de Pontos-Coração.

PONTO-CORAÇÃO, É TAMBÉM O ENCONTRO COM A VIRGEM MARIA, MÃE DA COMPAIXÃO. E a palavra « encontro », com Deus assim como com Maria, é até insuficiente para qualificar essa comunhão muito forte, essa identificação que nós queremos ter com aqueles que nos mandam para cumprir essa missão. Deus está nesse lugar, a Mãe está nesse lugar, nós estamos nesse lugar. Deus ama, a Mãe ama, nós amamos. Deus consola, a Mãe consola, nós consolamos. É a conjugação dum mesmo verbo com sujeitos que vão agir semelhantemente. Se dizemos: «Nós estamos com a Mãe, agimos com ela » não é suficiente, o chamado é mais que isso. Devemos dizer: « Nós estamos nela, agimos nela, consolamos nela. » E a modalidade da nossa presença quer se modelar sobre a da Virgem Maria no Evangelho. A chegada da Virgem Maria ou a presença dela nunca é anunciada com batucada e toque de trombeta. Dela, se diz só uma coisa que revela bastante a sua humildade, a sua discrição: « Ela está ali. » Às vezes ela fica silenciosamente na porta. E a presença dela é tão substancial que basta dizer isso para saber que tudo é possível, que a esperança pode vencer toda desesperança. É AINDA O ENCONTRO COM O OUTRO, com aquele que está bem próximo e que Deus escolheu para nós. E com aquele ou aquela, tem que construir uma amizade que não está fundada em primeiro lugar sobre a sensibilidade, sobre uma comunidade de língua ou de cultura, mas sobre o fato que o outro é tabernáculo de Deus, presença de Deus. Que ele é o dom que Deus nos faz no Ponto-Coração para nos apoiar, mas também para que ele nos apóie; para respeitar ele, mas também para que ele nos respeite; para que nós o amemos, mas também para que nós sejamos amados por ele em verdade. E isso é um mistério extraordinário que faz a vida comunitária se tornar quase uma vida sacramental. E é este olhar de fé, este olhar de verdadeira caridade, este olhar de esperança também que eu dirijo sobre os Amigos das Crianças que partilham minha vida, que vêm autenticar a qualidade da minha vida em Pontos-Coração. Sobre o resto, pode iludir-se, porém sobre isto não. Então lhes suplico: não vivam suas relações de cada dia, seus encontros com cada Amigo das Crianças como algo banal, rotineiro. Grande é o mistério da fé! Ide mais longe! Se entreguem mais! Renovem cada dia seus olhares! Se doem uns aos outros suas vidas, porque não tem amor maior que isto! Por fim — e vocês perceberão que essa reflexão chega somente no fim -, PONTOS-CORAÇÃO, É O ENCONTRO COM CADA CRIANÇA, cada pessoa do nosso bairro. É inútil repetir a que ponto cada um daqueles que nos encontramos já foi julgado, magoado, violentado, destruído, espancado. Eu me lembro dessa anedota que aconteceu durante minha última visita na Argentina. Uns jovens de 18-20 anos vêm bater à porta da casa, uns jovens, que frei Pierre-Marie tinha conhecido durante suas visitas na prisão. Eles vão embora depois de ter conversado um pouco. Mais tarde ainda, frei Pierre-Marie os encontra no centro de Paraná. Ele pergunta a eles: « De que vocês estão vivendo ? » E ele faz um gesto para perguntar a eles, sem ingenuidade, se não é roubo. Eles dizem que não. Então, ele pergunta: « Porque vocês não trabalham ? » E eles respondem : « Com nossa cara, é impossível achar algum trabalho. Para todo mundo, a gente não merece mais que animais. Nós somos feitos para sermos destruídos. Ah! se tiver mais pessoas como o senhor! » « Nós somos feitos para sermos destruídos; somos feitos para morar na rua; somos feitos para trabalhar nos lixões »: toda a vida dos nossos amigos não faz senão confirmar tais pensamentos. Nós queremos mostrar para eles outra coisa, mas não basta dizer apressadamente um simples : « Eu gosto de você / » ou « Deus te ama », para curar tantas rejeições. Precisará de muitas atenções, precisará de fidelidade, de muita fidelidade, muito renuncio. Comecemos testemunhar do nosso amor para as crianças dando a eles beijos, damos a última prova abraçando a cruz que eles têm nas costas. E se vivemos a vocação de Pontos-Coração até o fim, somos obrigados a passar de um para o outro durante esse ano. Ouvindo estas palavras, podemos ficar com medo, mas finalmente não é o caminho necessário de todo amor verdadeiro? Do amor dos pais para os filhos, do amor dos esposos um para o outro, do amor do padre para aqueles que lhe são confiados. Porque de fato, é o amor que Jesus nos manifestou: Ele abraçou a própria cruz de cada homen. Então, não errem: vocês encontrarão daqui a pouco os mais bonitos sorrisos das suas vidas. Eu penso no sorriso de Dany, em Bucaramanga. Vejam logo o que escondem tais sorrisos! Queridas Manuela e Sophia, querido Lourenço, vocês estão aqui, nessa manhã, rodeados por seus familiares e amigos. É lindo que eles estejam aqui para rezar para vocês, para lhes oferecer a força do Espírito Santo, e eu agradeço a eles. E especialmente mesmo, dou meu agradecimento a seus pais que lhes permitem de dar, o ano todo, àqueles que foram tão pouco amados, um pouco do que vocês receberam. Eles podem ficar orgulhosos de vocês! Vocês verão qual misterioso apoio à presença deles de hoje, a oração cotidiana deles lhes trará! Eu vejo como prova essa frase que um dos seus predecessores me escrevia recentemente: « Eu sinto sempre meus padrinhos comigo. Nunca teria pensado que a presença deles me traria tantas graças / » Padrinhos, sejam pois fieis: vocês vão ver a que ponto o compromisso de vocês vai fazer crescer e abrir os seus corações. Tenho que acabar. Vou resumir numa frase. PONTOS-CORAÇÃO É UM MISTÉRIO DE VISITAÇÃO. A cada encontro, é Maria que encontra Isabel e o menino que estremece no ventre dela e Maria se regozija: « Ele sacia de bens os famintos, despede os ricos sem nada » Como eu gostaria que vocês vivessem esse ano com essa profundeza. Nunca vocês terão conhecido tantas alegrias! Nunca vocês terão tanto o desejo no coração de cantar a grandeza de Deus!


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