Missa de envio, Ourscamp, 13 de setembro de 1992
Queridos irmãos e irmãs,
E belo ver nesta manhã este verdadeiro « cortejo apostólico » reunido em torno do altar e cercado de todos vocês, pais e amigos. Em meio a estes apóstolos existem aqueles do norte da França e da Bretagne, de Alsace e do Midi, de Anjou e da Picardie, tem de todas as partes! E pergunta-se: Por que eles estão aqui juntos, estes que há apenas um ano, desconheciam-se e não nos conheciam?
A resposta é simples. É que cada um, onde quer que esteja, em sua vida de estudante, de bibliotecária ou de secretária, de religioso ou padre, escutou uma mesma palavra de Jesus: « Ide! » Ide mais longe! Saí de sua cidade ou do seu vilarejo, da sua biblioteca ou do seu escritório! Parti e dai frutos! Assim, o que forma a pequena família que rápido, mas profundamente, se formou com aqueles que aqui estão, não é um ideal de exotismo, um desejo de fuga, um desgosto de uma situação, é uma palavra de Jesus… é um chamado...
« Ide! » Mas, ir onde? Ir por quê? O nome novo daqueles que partem responde a estas questões. Eles partem para ser Amigos das Crianças. E isto no sentido mais profundo da palavra! Eles partem para amar e serem amados.

Eles partem para ser amados por Deus e amá-Lo. Eles partem para viver em comunhão com o Seu coração. É algo muito evidente em todas as cartas que nossos Amigos das Crianças me escreveram pedindo para se comprometer na Obra. E se vocês soubessem o quanto eu me alegro disso!… Todos aspiram viver em comunhão com Deus, em rezar a Ele, em descobrir Seu amor, comendo a Sua palavra… Todos querem ver Jesus e descobrir em Sua maneira de amar a maneira como eles mesmos devem se deixar agarrar pelo amor.
Jesus deixou-se enviar pelo Pai: os Amigos das Crianças partem. Jesus viveu na intimidade da Sua Mãe: eles querem se deixar moldar, ensinar por ela. Jesus trabalhou discretamente na humildade da vila de Nazaré: eles querem partir sem publicidade, para viver em uma grande simplicidade a vida das pessoas do seu bairro. Jesus retirou-se para orar longamente ao Seu Pai: eles têm a necessidade de se retirar e adorar. Jesus escutou o grito do cego, Ele se inclinou sobre o leproso, Ele consolou Marta e Maria: os Amigos das Crianças querem escutar, olhar, consolar.
Jesus lavou os pés dos Seus Apóstolos: os Amigos das Crianças entendem sua missão como um longo lava-pés. Jesus deu-se em comida, Ele viveu a agonia, Ele padeceu a calúnia, Ele entregou a vida: os Amigos das Crianças sabem que o sacrifício não estará ausente das suas vidas, porque eles querem ir até o fim da sua missão…
Mas, além desta identificação com o agir de Jesus, o que nos importa é primeiramente a identificação ao próprio ser de Jesus, à pessoa do próprio Jesus. É nisto que reside a maior amizade. Com efeito, o que no fundo, motiva a partida de cada um, é finalmente Ele, Jesus. É o Seu coração que tanto amou os homens e que me ama pessoalmente, e que me faz viver, e que me cura, e que me salva.
O que motiva a partida de cada um, é o próprio encontro que ele fez com o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, com seu Pai pleno de ternura, com o Espírito consolador. E o que manterá cada um na fidelidade à sua missão, é o desabrochamento, é o crescimento deste amor de amizade, iniciado no batismo, que existe entre Deus e cada um daqueles que irão partir. É o amor divino que cada um experimenta intimamente, é a confiança imensa que Deus lhe faz, é a descoberta do fato da sua existência causar tanta alegria a Deus, é o fato de ser mantido vivo: É isto que cada dia, fará sair cada Amigo das Crianças e o conduzirá sempre mais longe, até a casa mais isolada, até o coração mais abandonado, para proclamar algo das Bem-aventuranças. E, neste sentido, a missão dos Amigos das Crianças, como toda missão, está fielmente inserida na Encarnação redentora.
Amizade com Deus. Amizade com o próximo. « Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros» (Jo 13, 35). Em uma comunidade cristã, na Igreja, não há, pois, melhor predicação do que esta: o amor. Tudo mais é traição. Tudo mais é uma algazarra vazia e sem fruto.
Os Amigos das Crianças vivem como irmãos e irmãs, em família. E a Carta que eles escolhem seguir é muito exigente: « Os Amigos das Crianças tentarão viver na mais perfeita comunhão, formando um só coração, perdoando-se o mais rápido possível após terem-se ofendido e tantas vezes seja necessário; jamais se criticarão uns aos outros, porém se estimarão e se animarão no Senhor.» Em outras palavras, eles tratarão de viver verdadeiramente como amigos uns dos outros porque eles são os amigos de um mesmo Senhor e o mesmo coração lhes habita.

- Cristiane, irmã Ines e Rita
Na pergunta da liturgia de envio que vocês vão escutar daqui a pouco, é dito: « Vocês, Amigos das Crianças, terão uma vida comunitária. Isto será para vocês uma força e uma consolação e, em certos dias, uma provação. » A vida comunitária é a maior alegria, mas é uma alegria que nasce às vezes do maior sofrimento. É aí, por excelência, que Deus forma nosso coração, que Ele o purifica, que Ele o molda. Ele era de pedra. Através da vida mais cotidiana, ele torna-se carne. Segundo a expressão do Cura d’Ars, « ele liquidifica-se». Eu diria: ele torna-se lágrimas de compaixão e de sangue. Aí está a mais bela matéria que ele pode ter, pois do coração de Jesus jorra água e sangue.
Nós falamos muito que a Obra Pontos-Coração é uma obra de compaixão e de consolação. Não se enganem com isso, queridos Amigos das Crianças! A compaixão começa na casa. Ela se exerce primeiramente em vocês: são vocês quem são, em primeiro lugar, o homem açoitado sobre o qual se inclina o bom Samaritano, que vocês também são. Em seguida ela se exerce junto daqueles que irão viver com vocês este ano: eles também são pecadores e feridos. Não é senão seu amor que os ajudará a ir mais longe. É inútil conversar durante horas entre vocês para tentar descobrir as raízes do sofrimento que turvam a psicologia do outro. Ide antes escutá-lo!… É inútil se aprofundar nas razões, de « fazer tomar consciência». Ide antes, oferecer seu próximo a Deus!… É inútil sonhá-lo como um cordeiro se ele é um ouriço. Assim como ele é, amem-no! Amem-no como Deus o ama: sem condições, sem medida. Amem-no porque Deus vo-lo dá como uma graça da sua presença! Ide ao seu coração: não fiquem na periferia, nos arredores, nos pequenos gestos que lhes enervam, nas pequenas histórias que ele conta, sempre as mesmas, em suas manias… Queridos Amigos das Crianças, se vocês soubessem como Deus lhes ama, se soubessem a qual amor são chamados a viverem juntos…

- Bernardo e crianças na India
E, finalmente, vocês são chamados a serem Amigos das Crianças. Destas pessoas das quais vocês já descobriram o rosto em algumas fotografias, vocês são chamados a tornarem-se amigos. Não serão mais « eles» : será Paulo, Pedro, Ramesh, Josefina… Não serão mais « pequenos pobres» aos quais vocês irão levar café e macarrão, serão aqueles com quem Deus lhes chama a partilhar suas vidas… Não serão mais leprosos, sarnosos, tuberculosos, serão seus amigos e o seu maior desejo será de tomar sobre si sua lepra, sua sarna, sua tuberculose, até o dia em que descobrirão que vocês estavam infectados antes deles e que eles lhes curarão de tudo isto antes mesmo que vocês tenham podido aliviá-los um pouco. Não serão mais assassinos, prostitutas, casos difíceis. Serão seus amigos.
Eles não têm nem ouro, nem dinheiro, nem instrução, nem etiqueta, mas aquilo que eles têm eles lhes darão. É o tesouro deles. É o coração deles. E eles lhes chamarão a entregar o de vocês. Eles lhes chamarão a viver do essencial. É por isso que, sem geladeira e sem vídeo, vocês correm o risco de conhecer bem rápido as maiores alegrias de suas vidas e, exultantes de felicidade, de retomar por conta própria a oração de Jesus: «Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra! Porque, ocultando estas coisas aos entendidos, tu as revelaste aos ignorantes. » (Mt 11, 25).
Em contato com nossos amigos, sua vida mudará profundamente. Não se sai ileso de Pontos-Coração porque não se sai ileso de nenhuma história de amor. Mas vocês ganharão com isso e a Igreja ganhará com vocês assim como a humanidade inteira.
Queridos Amigos das Crianças, aqui seus pais são numerosos. Seus amigos também. O fato de que eles estejam aqui significa que estão entrando com vocês nesta aventura, nesta paixão. Talvez eles não ousem lhes dizer tão simplesmente, mas eu estou certo de que sua presença equivale a estas frases: « Sabe, eu entro com você neste mistério, nesta Obra. Você é chamado a partir. Eu me deixo tocar por seu chamado. Com você, quero que o Amor seja amado. Lhe ajudarei. Estarei ali com você para que esteja ali conosco junto a todos aqueles que você encontrará. Sei que doravante o testemunho de sua vida será mais do que nunca o testemunho das amizades que você viverá. Eu aceito. Até mesmo, me alegro com isto e lhe agradeço. » Eu também, pais e amigos, lhes agradeço por estarem aqui como que misteriosamente, vocês estarão em breve com cada um de seus filhos, de seus irmãos e irmãs, de seus amigos, em Bucareste ou em Bangkok, em Belém ou em Lima, em Santa Fé ou em Salvador. Lhes agradeço por constituir nossa família Pontos-Coração que deseja ser um grande coração que faça recuar o ódio e leve a ternura.
Se quisemos lhes enviar em missão hoje, 13 de setembro, é porque trata-se do domingo mais próximo de 15 de setembro: dia da festa da Compaixão de Maria, a festa da padroeira da Obra.

- Mater Dolorosa - Murillo
Isso significa que esta festa, em meio às festas litúrgicas do ano, é a que mais expressa o que é a nossa vocação. Com efeito, se não se compreende o que é Pontos-Coração, é preciso contemplar a Mãe de pé junto ao crucificado. E se, caros Amigos das Crianças, vocês querem compreender cada dia mais a sua missão, é no Gólgota que é preciso voltar. Vocês descobrirão que o lugar onde vocês estão finalmente chamados a viver, não é nem Ourscamp, nem Bangkok, nem Saïgon, é no coração de Maria, Mãe da Compaixão. Ali onde podemos nos encontrar todos e sempre. Ali onde não nos deixamos. E somos chamados a viver com este coração, o matrimônio mais íntimo que há, mais fecundo que há: o misterioso matrimônio do coração da Virgem Maria e do coração do Crucificado, com o coração de todos os crucificados do mundo. É tão grande!
