• 18 de maio de 2010
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O Mistério do Encontro

Missa de envio, Noyon, 16 de setembro de 1995 Padre Thierry de Roucy, fundador

A maioria das vezes, quando se viaja, com exceção da lembrança de algumas paisagens fascinantes, de alguns crepúsculos de rara beleza, o que permanece na memória do nosso coração são os encontros que nela fizemos. O homem gosta do turismo, de belas praias, dos bons restaurantes; porém, no fundo, ele prefere os sorrisos de crianças, os corações que se abrem para ele, os rostos que, com alguns traços, revelam uma história, uma cultura, uma vida.

Aos que partem com Pontos-Coração, muitas vezes costuma-se observar que eles têm sorte, pois são enviados para belos países. Estranhamente, eles dão pouca atenção a isso. O que eles logo observam são os rostos. O que efetivamente torna atraente o país para onde eles são enviados, são as amizades que irão fazer, o acolhimento que receberão, a vida que descobrirão, muitas vezes palpitante, vibrante, incrível. Pontos-Coração parece definir-se, assim, pela palavra “encontro”, “amizade”. E hoje, eu gostaria, com vocês, de interrogar estas palavras para compreender melhor a Obra na qual se comprometem tantos Amigos das Crianças. Um encontro com os que sofrem

O que no começo me comoveu, foi um grito: um grito de apelo, de socorro, de dores. O grito de milhões de crianças. Um grito às vezes silencioso, mas que em geral, rasga o coração, pois procede de um sofrimento que atinge o mais íntimo do ser.

Ninguém sofre mais com a solidão do que a criança. Todo o seu ser pede a ternura, o encontro, a relação. Ela não tem dificuldade de ser sorriso, confiança, abertura. Mas, se com pancadas se responde à seu sorriso, com rejeição à sua confiança, com abuso à sua abertura, ela fica ferida como que mortalmente, com um ferimento que talvez precisará de toda a sua vida para cicatrizar.

A maioria das crianças que encontramos têm os braços espontaneamente abertos. Aparentemente, essas crianças não estão fechadas sobre si mesmas, nem bloqueadas, nem revoltadas. No íntimo, carregam uma angústia imensa — aquela que é gerada pela solidão e pelo sentimento de ser indesejado — são possuídas por uma violência terrível — aquela criada pelo fato de se sentirem cercadas por arruaças, por um mundo insensível, muitas vezes injusto. Elas são anjos capazes de gestos tão delicados que nos fazem chorar, de palavras tão afetuosas que nos comovem; e, ao mesmo tempo, são seres particularmente duros, capazes de nos bater e injuriar. São estas crianças que nos esperam. Sua ternura é um chamado: “Ame-me!” Sua violência também o é: “Ame-me!” E esse pedido de ser amado é mais dramático que todos os “Dá-me pão!”, “Conduza-me à escola!”, “Me leve para brincar!”, que podemos ouvir.

É o convite a dar nosso coração, como última possibilidade de sobrevivência da criança; é o apelo a oferecer nossa amizade; é a necessidade que elas têm de que lhes pertençamos. Os encontros mais fortes se realizam, geralmente, à sombra da cruz: as crianças acabam de fugir do furor de seus pais; estão na rua, doentes e famintas; elas são como brinquedos nas mãos dos seus maus companheiros. Nós recolhemos suas lágrimas, seus gritos, seus golpes de vingança, como os primeiros dons que elas fazem para alicerçar nossa nova amizade. E essa amizade não pode ser ilusão. Tentaremos ser fiéis a ela, pois ela abre no coração dos pequeninos o caminho de uma esperança inesperada. Poder-se-ia acreditar que essas pequenas vítimas inocentes são os primeiros beneficiários dessa amizade. Os Amigos das Crianças o são ainda mais. Eles próprios não cessam de testemunhar isso. E, contudo, nunca tiveram amizade mais animada, com conversas tão corriqueiras, amizade tão desigual. É como se essa pobreza de troca e a gratuidade do seu amor lhes elevassem até identificá-lhes com Jesus Cristo. É como se essa descida ao encontro do pequenino lhes fizesse participar em algo que é próprio de Deus! Experiência inigualável!

Um encontro com Deus

NÃO é preciso muito tempo para que nossas amizades nos façam descobrir a Presença de um Outro. Pensava-se ser dois. De repente, percebe-se que se é três. E este não é o deus dos filósofos ou mesmo o Deus dos teólogos com seus sábios silogismos; é um Deus em frangalhos (desfigurado??); é um Deus de sofrimento ao qual ninguém pode escapar. Não é o Deus etéreo que ninguém quer porque é inacessível; é o Deus da cruz com o coração mil vezes traspassado; é o Deus que grita: “Tenho sede!” e que se lamenta: “Eloi, Eloi, lama sabactani!”. Não há encontro mais concreto, mais real, mais tangível. É um encontro pleno, ou seja, que oferece uma plenitude: Cristo está aí; “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.” – e, ao mesmo tempo, é um encontro que convida para algo mais, para uma totalidade da qual ele é apenas o ponto de partida. É nesse sentido que cada amizade é um milagre: ela manifesta algo muito maior, fala do mistério da amizade de Deus para com o homem. Os Sacramentos- especialmente o do Batismo, na medida em que ele nos faz compreender que viver é pertencer a, é seguir; o da Reconciliação, na medida em que ele nos torna misericórdia; o da Eucaristia, na medida em que ele é um apelo à oferenda – nos preparam para cada amizade, iluminam cada um de nossos encontros, nos permitem dizer a cada criança que encontramos: “É ele que eu procurava!” E encontrar realmente Aquele que nosso coração deseja ardentemente: O Deus vivo e verdadeiro. Isso quer dizer que em todos os nossos gestos ordinários – cuidar de um machucado (dodói??), costurar uma calça, catar feijão... – não existe nenhuma banalidade. Todo acontecimento tem algo que vai além da realidade, um peso de graça que nos dá acesso à totalidade de nosso destino. Um encontro consigo

A filosofia contemporânea e a psicologia convidam o homem a definir-se, analisando-se, ouvindo seus questionamentos, seus desejos e dando a estes livre curso. O verdadeiro conhecimento de si está no lado oposto deste caminho de fechamento, de introspecção. O segredo disso é antes de tudo esta palavra de Jesus: “Quem se perde, se acha!” Pontos-Coração não permite que seus membros ocupem o tempo consigo mesmo. Não que isso seja uma regra escolhida, imposta, mas é uma exigência que procede do fato de que “caritas urget nos”, de que há incessantemente uma emergência de caridade: é uma criança que está com hemorragia, é um moribundo que é preciso velar, é uma mulher embriagada a quem é preciso acalmar. E, no entanto, nesse dom de todo instante, neste esquecimento de si, nessas longas horas de adoração, não há um Amigo das Crianças que, em determinado momento, não exclame: “Compreendi: minha vocação é ser amor no meio da humanidade sofredora! Minha vocação é permanecer ao pé da cruz! Minha vocação é ser Maria!” Brincando, sorrindo, acompanhando pacientemente a história de cada um, visitando as famílias, carregando com as pessoas a dura realidade de nosso bairro, cada um disse um dia para si mesmo: “Não há nada mais verdadeiro! Está aí a verdade! A verdade da vida! A verdade do meu ser! Parece-me que de hoje em diante eu não posso dizer nada mais verdadeiro sobre mim do que: “Eu sou feito para ser amado. Sou feito para amar. Criado à imagem e semelhança de Deus, sou como Deus: sou amor e minha vida é servir, é ter compaixão, é compartilhar, é perdoar!” Em Pontos-Coração, as responsabilidades podem parecer pequenas – nada a ver com aquelas dos diretores de empresas ou políticos! — e, todavia, já que nestas últimas se descobre muitas vezes que se é um peão, que se está atado, que se tem pouco valor; com aquelas — lavar os pés dos pequenos, preparar o chá, lavar roupas —, se descobre toda sua própria grandeza, sua infinita dignidade. Loucura do Evangelho! Desde criança, vocês aprendem a conhecer o mundo à força de réguas e compassos, de aulas teóricas e praticas, de filmes e leituras. Tudo isso lhes tornou sábios. Vocês estudaram muito. Pontos-Coração – a vida comunitária, a vida de oração e a vida de compaixão – lhes dará uma inteligência ainda mais profunda da realidade. Vocês não avaliarão a vida, o bairro em estatísticas, os sofrimentos em gráfico. Vocês penetrarão no coração de tudo o que existe para escutar o coração de Deus, o coração do pobre, o seu próprio coração. Vocês julgarão a realidade à medida (através??) do amor. Colocando os olhos nos olhos do pobre, vocês colocarão os olhos nos olhos de Deus. Colocando o coração no coração do pobre, vocês colocarão o coração no coração de Deus. É, finalmente, a mais bela viagem que se realiza, quando alguém se compromete na Obra! É aquela que, eu espero, vocês realizarão e da qual não poderão voltar!


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