• 21 de janeiro de 2012
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Marcelo, ex voluntário argentino, após sua experiência no Brasil

Marcelo, argentino

Marcelo fez uma experiência de 18 meses no Brasil. Hoje nos conta sobre seu trabalho na Argentina:

Lembro o primeiro dia que cheguei no Hospital Psiquiátrico onde se atende pessoas com problemas mentais, de drogas e de álcool. Meu primeiro impulso foi sair correndo de lá. Logo após a reunião com a equipe médica fui conhecer meu paciente. Muitas foram as perguntas que chegaram ao meu pensamento naquele momento: Será que durante a prática do meus estudos como Acompanhante Terapêutico vou deixar-me envolver por sua loucura? Será que é um perigo para minha vida? O que pode dar-me alguém que há tantos anos vive em um lugar longe da cidade, da realidade? Eu só tinha uma certeza: que ia pra dar algo; difícil pensar que ele teria algo para dar-me.

Meu paciente tem cinquenta anos, faz doze anos que esta internado no Sanatório por causa da sua enfermidade - a esquizofrenia paranóide. Sua realidade é bem difícil, lembro uma vez que me disse: “Marcelo, eu tenho mais anos de internação que visitas de minha família”. Muitas vezes me disse: “não sei se a luz que vejo no fundo do corredor é de uma saída ou de um trem que vem na minha direção” Depois de vários encontros (vou duas vezes por semanas ao Psiquiátrico) tinha que me fazer a pergunta: Quem é ele que hoje vem na minha vida? A mesma pergunta que algumas vezes, como amigo das crianças, me fiz no meu bairro da Coroa da Lagoa. Tinha que dar um passo adiante, poder olhar além do seu sofrimento e da sua enfermidade. Tinha que fazer a experiência de avaliar, com o coração, tudo o que estava acontecendo comigo. “… é o critério que Deus nos deu, ao nascermos, para que possamos encontrar a verdade, para que ninguém nos engane. Esta é a maior dignidade do homem: poder julgar as coisas…” (Pe Julian Carron)

Diante disto, descobri que a beleza do homem, neste caso meu paciente, vai além do seu sofrimento e da sua enfermidade. Descobri que cada um dos pacientes tinha algo para dar-me. Ele, de maneira especial, o mistério que, diante do seu sofrimento, da sua enfermidade, da sua solidão, dos seus anos de encarceramento no Psiquiátrico, faz a opção pela vida. Acho que a frase que ele me disse uma vez, resume esse mistério. Ele perguntou-me: “Marcelo, você sabe porque a vida vale mais que uma bela casa ou um lindo carro?" Eu respondi: Não. Então ele me disse: “Porque a vida pode engendrar algo, sempre pode!” Nossa! Muitas vezes diante do seu sofrimento eu não tinha resposta, mas ele com seu sofrimento tinha uma resposta para mim.

Tudo isto me faz pensar em tudo aquilo que me foi dado e o que eu faço disto. A vida espera algo de mim. Diante disto que eu hoje posso viver, Deus faz-se presente a mim. Creio que a vida do meu paciente tem sentido, mesmo no encarceramento e na solidão. Creio no amor particular que Deus tem por cada um de nós. Isso aprendi lá no Brasil: Ele tem um plano para nossas vidas até o ultimo momento. Vem-me à memória a palavra do Padre Thierry, “A sede maior do homem é a de uma presença…” A beleza do encontro diante do meu paciente, diante de um jovem que consome drogas, de um outro que mata, de uma mãe que aborta, só se pode fazer quando eu posso colocar-me à espera, na espera de que esse outro que vem ao meu encontro, mesmo no seu sofrimento, nas suas fraquezas, possa dar-me algo, ficar na espera de algo que também constrói meu destino. Eles tem uma história, um caminho percorrido. Esta é a experiência que hoje vivo no meio do mundo, tem algo que corresponde com minha vida, porque tem Deus no meio dela.


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