• 30 de junho de 2010
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Jasi na Ucrânia

Ossana, Jaci e cola

Jaci, baiana nos conta sua missão no Ponto Coração da Ucrânia.

"Temos um ritmo cotidiano bem distinto do que experimentei, na Fazenda, no Peru e mesmo na Argentina. Estamos no cotidiano do mundo profissional e dos estudos. Tenho alguns alunos de francês, Nadia e Aude estudam na Academia de Belas Artes. A noite cultural que organizamos cada mês em nossa casa, já se tornou um ponto de encontro para os jovens artistas. Um evento que preparamos com bastante atenção, uma oportunidade de aprofundar as novas amizades e de transmitir o Carisma da Compaixão com a ajuda de alguns artistas que se tornaram amigos, que abrem nosso olhar, que alimentam nossa fome de sentido.

Também dedicamos tempo a alimentar nossa amizade com os mais “deixado”, nossos amigos do abrigo de velhos que visitamos cada domingo, assim como o povo da rua que encontro todas as semanas.

Pelas ruas bela Lviv

Desde que cheguei vou com um grupo de amigos da Comunidade São Egídio à distribuição de alimentos cada semana em distintos pontos nas ruas de Lviv. Ali encontramos o povo que vive na rua ou da rua. Eles esperam congelados numa fila sem forma. Eles se precipitam sobre um pedaço de pão com (quase) queijo... A primeira vista é mesmo difícil de distinguir, quem é homem, quem é mulher? quem é jovem quem é velho? Quem é quem? Eu me «meto» no meio deles. Com quatro palavras na boca, arrisco uma conversação: No abrigo de velhos

- Bom dia! Como vai!

Ela ri, porque já são quase 7h da tarde eu ainda no «bom dia!». Ela me responde em russo, ai!o que será que ela quer saber? Meu nome? De que país venho? Ou será que ela simplismente contesta minha pergunta contando-me o quão difícil foi seu dia de hoje? Eu escuto, o que Deus é quem sabe! E assim, devagarzinho, no meio da multidão vejo surgir rostos.

Agora que conheço um pouco o centro da cidade de Lviv tenho minhas ruas preferidas, gosto de caminhar entre a Praça Renok e a Rua Bipmenska, onde posso admirar os prédios antigos, delicadamente decorados com esculturas clássicas, baixo-relevos de cenas cotidianas de outros tempos, uma arquitetura feita de tal maneira que nos deixa parecer como se todo minúsculo detalhe foi pensado desejado que seja assim.

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Com Nadia e Senhora Maria

Ali também por certo encontro sempre algum rosto querido. Senhora Nadia, está debruçada no contentor de lixo, eu apenas reconheço as cores da sua roupa, eu lhe chamo pelo nome, ah! Ela me reconhece; mais que a vergonha, ela está feliz em me ver. Trocamos algumas frases, alguns instantes de silêncio... nos encontraremos na quinta- feira, próximo dia da distribuição de alimentos. Sigo meu caminho, perto da igreja Dominicaniski Sobor avisto Ossana, ela vaga pelas ruas, que busca? Seu rosto é terno mesmo se tão marcado, suas palavras são de afeição mesmo se não as entendo totalmente! Ela me repete uma e outra vez como alguém que com paciência educa até que finalmente entendo, daqui a alguns dias será o aniversário de seu companheiro Nicolau, o Cola, a quem batizei de Coca-Cola! Única forma de não esquecer do seu nome e de lhe distinguir dos tantos Nicolaus que conhecemos. Com Ossana, cada vez levamos bom tempo para nos despedirmos! É engraçado! Como se a gente tivesse ainda algo a dizer... Eu gostaria de lhe dizer o quanto seu rosto me encendeia, o quanto depois de nossos breves encontros eu saio com mais força para afrontar a vida, mas atenta ao que segue. Mistério do encontro.

Pani Maria da porta da igrejaAqui vão alguns retratos, rostos de alguns destes amigos... rostos duros cobertos de vergonha, de sujeira, de vodka, de frio, de feridas... rostos que aprendi a amar, que aprendi a buscar no meio do tumulto. Lhes confio a cada um deles, lhes ofereço como precioso tesouro a partilhar, como como oásis que surge no meio do deserto de nosso cotidiano, como lugar seguro a descansar, Obra–prima do Criador que espera ser olhada, contemplada para avançar no caminho da vida.


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