• 10 de setembro de 2011
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Irmã Laetitia visita o Ponto Coração da Coroa

Desde minha chegada ao Brasil em 2009, tenho a imensa alegria de acompanhar os voluntários de Pontos Coração num bairro difícil de Simões Filho, distante 20 minutos da Fazenda do Natal onde moro. Cada semana apresento um texto para estudar e refletir com eles e os acompanho nas visitas. Este bairro é cheio de vida: as crianças correm nas ruas, os vendedores passam, tem os carros, a música... É impossível ficar impassível frente a uma explosão de vida como esta. Estou edificada com nossos jovens voluntários: eles carregam o peso das pessoas, as acompanha ao Hospital, ajudam as crianças nos deveres de escola...

Neste bairro algumas pessoas tem um destino trágico, que acompanhamos desde muito tempo. Penso em Irene, Dona Ana, Cristina, o senhor Ernesto. A vida delas parece um “beco sem saída” no qual parece impossível dar um passo ou avançar. Tem, muitas vezes, demais sofrimentos, escolhas erradas, demais incapacidades e misérias. Diante dessa angustia, às vezes, nossos jovens desesperam… e eu também! Não tenho resposta para dar, solução para propor. Sei que para alguns como Irene, tentamos tudo sem resultado visível. Dou-me conta que temos, nesses momentos, que dar um verdadeiro passo na fé e aceitar de ser uma presença gratuita daquele que fica de mãos vazias frente ao outro que grita e a quem é impossível responder senão com um “Estou aqui com você.”

Fico maravilhada de ver esses jovens que abraçam essa realidade com todo o coração, que tem verdadeiras perguntas sobre essas pessoas: “Irmã, porque Irene esta aqui ainda? Porque tanto sofrimento? Como é que ela faz para permanecer viva? Como é que ela pode ainda rir? Finalmente penso que a resposta de Deus frente ao grito dessas pessoas, ao meu próprio grito de desespero, é o caminho que fazem nossos jovens voluntários; um caminho que faz com que Irene, Dona Ana, Cristina, Dona Maria, Senhor Ernesto entrem na vida deles, no coração deles, nas noites sem sono deles, e assim tornam-se importantes aos olhos um do outro.

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Voluntários do Ponto Coração da Coroa com sr Ernesto

Cada sexta-feira nossos voluntários descansam, porém na sexta-feira passada, às sete da manhã, chegaram duas meninas na porta do Ponto Coração. Noelia, uma amiga das crianças, abriu a porta. Daiane, de onze anos, e sua irmã Priscila, de nove, entraram com farinha e ovos na mão, dizendo: “viemos para fazer um bolo de aniversário para nossa mãe.” Enquanto faziam o bolo, Daiane falou: “ser mãe e ruim”. Perguntei porque ela tinha dito isso e ela me respondeu: “é minha mãe que sempre diz isto”. É assim que ela iniciou contar as histórias da família, uma história bem difícil, marcada pela violência, pelo alcoolismo do pai, a solidão da mãe.

As oito e meia elas foram embora muito felizes com o bolo. Acordaram a mãe cantando Parabéns... As nove, estavam de novo no Ponto Coração com um prato com dois pedaços de bolo: um para Nani, outro para mim. Interiormente eu pensava que era incrível essas meninas terem levantado tão cedo para fazerem um bolo para a mãe. De onde flui essa gratidão dentro dessa vida tão dura, com a pressão da mãe delas fazendo-as sentir que boa parte do seu sofrimento vem da sua maternidade?

“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. » Mt 11, 25 Daiane e Priscila acabavam de nos revelar algo essencial: nada pode apagar a alegria de ser; a alegria de se saber gerado por um outro, a alegria de ter recebido a vida, de ser convidado para o banquete da vida!


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