De um Ponto Coração a outro no 30, março de 2000
AQUILO que melhor revela a situação atual do homem é a pergunta que Deus fez a Adão após seu pecado: «Onde estás?» (Gen.3,9). Com efeito, ela diz a muitos que estão perdidos. Esta pergunta é dirigida ao primeiro homem, mas igualmente a cada um de nós: «Onde estás? Volte. Custa-me tanto suportar o fato de que estejas tão longe... tão longe de mim... tão longe da tua felicidade…» Talvez um dia, vocês escutaram este chamado ou irão escutar: «Onde estás? Eis, vinte… trinta… quarenta anos que tua vida não tem sentido. Falta-lhe tanta profundidade!» Com efeito, no olhar do Reino uma vida vale aquilo que ela contém de amor verdadeiro, de puro amor. Fora disso, ela é tão superficial! Este chamado a nos abandonar a Deus, a nos abrir ao seu amor, é finalmente um apelo a recebermos o sacramento da misericórdia. Então, é necessário determinar-se, não adiar indefinidamente este passo salvífico e confiar-nos a Deus para que Ele nos guie.
Onde ir? Como nos preparar ?
ODE ser que seja difícil encontrar um padre. Mas não exageremos: não somos tão engenhosos para encontrar os meios de satisfazer algumas das nossas necessidades menos vitais do que a que temos da misericórdia! Aquele que quer se confessar acabará por encontrar tempo e lugar onde poderá fazê-lo.
Como para toda coisa importante, é preciso se preparar para este sacramento. O melhor meio de fazê-lo é recorrer ao Espírito Santo. É Ele quem nos prestará o melhor serviço nesta matéria, pois Ele conhece Deus e Ele nos conhece. É Ele quem, pouco a pouco, nos ensinará a nos confessar na verdade e na confiança, pois é preciso reconhecer que por enquanto não sabemos bem como fazê-lo. Mas esta incapacidade, no entanto, não é um obstáculo a nos colocar de joelhos, ela é antes, um convite à súplica: «Espírito Santo, eu te peço, ilumina-me sobre mim mesmo! Manifesta-me a conversão à qual eu sou chamado!»
O Espírito Santo sempre nos responde; não nos apresentando uma lista de princípios aos quais não se pode falhar, mas nos mostrando um rosto: o de Jesus. É como se Ele nos dissesse: « Tu fostes criado “à sua imagem e semelhança”(Gen 1,26). Eis o rosto que tu és chamado a ter! E agora, olhe aquele que no momento tu tens!». E o que temos a confessar, é esse abismo entre o rosto de Jesus e o nosso. A maneira como Jesus ama o seu Pai, como Ele ama os homens, como Ele ama a si mesmo é tão diferente da forma como nós amamos. Pouco a pouco, o Espírito Santo nos mostrará este ou aquele aspecto da nossa existência, onde esta diferença é particularmente evidente. Ele não pode nos mostrar tudo de uma única vez, não poderíamos suportá-lo. O Espírito Santo, nos revela com doçura, de confissão em confissão, a gravidade do nosso pecado.
O exame de consciência não é uma espécie de introspecção maléfica que nos fecharia sobre nós mesmos em lugar de nos abrir ao Salvador: «Quem se orienta pela análise psicológica, dirige-se no sentido oposto da confissão cristã ¹.» O exame de consciência não deve nos fechar sob nossas faltas, mas nos ajudar a reconhecer o apelo de Cristo e o sentido do nosso destino. Se confessar, é pois, simplesmente se expor a Deus em verdade e se abrir à sua graça.
Que vou dizer?
QUANDO chegamos diante do padre, pode ser que tenhamos alguma idéia do que vamos dizer. Mas, seja como for, a vergonha nos invade e ficamos bem inquietos por aquilo que o padre poderá pensar de nós. Curiosamente, logo que começamos a nos confessar, pode ser que o Espírito Santo confunda o que havíamos previsto confessar e nos mostre de repente, um mal mais grave do que pensávamos e que nos impede de nos assemelhar ao Senhor.
Quando começamos a nos confessar, somos dolorosamente conscientes de não estarmos ainda prontos a fazê-lo corretamente. Sabemos ainda tão mal discernir o nosso pecado … Sabemos ainda tão mal reconhecer o apelo de Deus… Temos ainda tão pouca contrição… De sua parte, o padre, se ele é verdadeiro, reconhece a mesma coisa: ele próprio, de certa forma, ainda está tão pouco pronto a receber a confissão, a dar a absolvição… É um mistério tão grande! Mas esta fraqueza do penitente, assim como a do padre, é também uma graça… Ela dá lugar à presença do Espírito Santo.
Muitos se culpam por ter medo de se confessar, como se este medo manifestasse a dúvida que eles têm da misericórdia de Deus. No entanto, este medo não é tão anormal. É de uma certa maneira, uma participação na angústia de Jesus no Getsêmani ou no Gólgota: «Se este cálice pudesse passar longe de mim…» A tentação é de sempre evitar a hora, de adiar o momento da verdade. É que não é fácil colocar-se nu diante de Deus, de se despojar de tudo perante o seu ministro. Como Adão, preferiríamos nos esconder, nos abrigar do olhar do Pai, pois na verdade, temos medo dEle, um terrível medo: é esta a conseqüência mais funesta do pecado original, é a herança mais terrível legada pelo primeiro homem. Este medo é profundamente enraizado em nosso ser, e é preciso todo um trabalho da graça em nós, para nos levar a uma outra visão de Deus, aquela que nos oferece Maurice Zundel quando ele diz: «Deus é um coração, somente um coração, totalmente coração!»
«Pai, abençoa-me porque eu pequei.»
E tão bonito começar a confissão, assim como nos propõe a liturgia da Igreja, dizendo: «Pai! Meu pai!» Meu verdadeiro nome, não é «pecador», é «filho». Eu sou o filho pródigo. E meu Deus, é meu Pai bem amado que me espera, que tem os olhos cansados de tanto esperar meu retorno. Toda a doçura da confissão, toda a ternura divina que existe neste sacramento nos aparece assim desde os primeiros instantes nestas palavras: «Pai, abençoa-me porque eu pequei!» É porque eu pequei e não apesar do meu pecado, que eu peço a Deus para me abençoar, para falar bem de mim. Não me condenes Senhor, eu confio em Ti! E as palavras benevolentes do Pai, palavras salvíficas, vão, com efeito, nos curar: «Onde o pecado é abundante, a graça é superabundante.» (Rom. 5, 20).
Permitam-me esta anedota: Eu conheci um pai de família que tinha o costume de cada noite abençoar os seus filhos, traçando sobre suas frontes uma pequena cruz. Um dia, um deles comportou-se particularmente mal; por isso, o pai decidiu castigá-lo negando-lhe sua bênção. O menino todavia, esperava mais impaciente que nunca. Entretanto, como a bênção não chegava, começou a soluçar e de repente, pôs-se a gritar em seu quarto: «Papai, o senhor é um mentiroso!» O pai chegou e pediu ao seu filho que explicasse. Ele o fez dizendo: «Todas as noites o senhor me diz que me dá a bênção de Deus; pois bem, se fosse verdade, o senhor me daria também nesta noite, pois eu fui malcriado, portanto, tinha mais necessidade que nunca desta bênção para sair da minha raiva.» A criança tinha compreendido muito bem: nós temos necessidade da bênção de Deus, não porque somos justos, mas porque somos pecadores. Por isso não deixemos nunca de começar nossa confissão com esta frase sublime: «Pai, abençoa-me porque eu pequei!»
O momento da confissão
sem dúvida, para nós, o momento mais crucial. Talvez tenhamos preparado uma bela lista… Talvez tenhamos encontrado um meio de dissimular a realidade através de frases ambíguas que não correm o risco de «chocar o padre»… Se existe uma coisa que Deus espera de nós, no entanto, é a verdade e neste instante mais que nunca. Trata-se de nos mostrar, o mais exatamente possível, tal como somos. Que as acusações, sejam precisas e claras! Se por exemplo, vocês dizem: «Eu faltei com a pureza», o que o padre deve compreender? Seus olhares pousaram um segundo a mais sobre uma publicidade maléfica ou vocês praticam a pornografia, o adultério, o incesto ou o que mais...? Para que o penitente conheça verdadeiramente a alegria da absolvição, ele deve entregar todo o seu coração a Deus e o padre pode ajudá-lo fazendo-lhe algumas perguntas. Se não é necessário descrever ou contar tudo em detalhes, é conveniente no entanto, confessar todas as suas más inclinações (ilustrando com tais e tais fatos) e confessar todos seus pecados graves, com simplicidade e verdade. São João da Cruz diz que um pardal não pode mais voar se ele está preso por um fio ou por uma corrente. Ou também, se a porta da suas casas está fechada com doze ferrolhos e vocês só podem abrir onze deles, ainda assim vocês não poderão entrar. Da mesma forma, se eu confesso onze faltas graves e deliberadamente dissimulo a décima segunda, a porta do meu coração corre o risco de permanecer fechada à graça de Deus...
A Contrição
Cura d’Ars diz que é preciso passar mais tempo pedindo a Deus uma verdadeira contrição que examinando a consciência para saber o que é preciso dizer ao padre. Infelizmente, isto não é o que fazemos geralmente! Peçamos a Deus de sofrer por nosso pecado como se fosse uma traição. Um noivo que fez sofrer a sua noiva não dorme a noite! É preciso amar a Deus, pelo menos com essa mesma intensidade que nos leva ao arrependimento por estarmos tão longe dEle e que nos ajudará a resistir mais vigorosamente a todas as tentações que ainda conheceremos.
Um menino, de mais ou menos dez anos, aproximou-se de mim um dia para se confessar. Durante um longo momento ele ficou silencioso. Eu não ousei apressá-lo nem interrogá-lo. De repente, ele levantou a cabeça, voltou-se para mim e perguntou-me: «Padre, você conhece o Himalaia? – Sim, claro, eu disse. Não é uma altíssima cadeia de montanhas? – Pois bem, veja, replicou o menino, meus pecados formam uma montanha ainda mais alta que o Himalaia.» Esta criança, que amava profundamente Jesus e estava extraordinariamente habitada e conduzida pelo Espírito Santo, tinha grande consciência da sua miséria e daquela do mundo inteiro. A criança, começou a derramar, docemente grossas lágrimas, tão belas, e eis que me declarou: «Tenho tantos pecados padre, que nem posso confessá-los; eu não posso senão chorá-los.» Eis aqui o exemplo de uma verdadeira contrição.
A exortação
padre é o porta-voz do Espírito Santo, de uma maneira bem particular nas poucas palavras que ele diz ao seu penitente após a confissão. Aquilo que ele diz toca o penitente no seu mais íntimo, naquilo que ele tem de único. Talvez elas iluminem o penitente sobre ele mesmo, sobre seu pecado, sobre os apelos que Deus lhe dirige. Neste sentido, elas são revelações como o foram as palavras que Jesus dirigiu à Samaritana, depois que ela confessou não ter maridos. Mas a exortação é também um convite a crer, a esperar, a amar mais. O Senhor, através do padre, convida o penitente a ir mais longe, a acolher sempre mais o Espírito Santo. Talvez ele ainda cairá, talvez se desviará de novo, mas Jesus também caiu uma, duas, três vezes, até a confissão por excelência que é Sua morte na cruz onde Ele levou e reconduziu ao Pai todos os pecados do mundo.
«E eu, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo…»
pecado confessado é verdadeiramente nosso pecado, ele é intimamente ligado à nossa pessoa. Eis porque às vezes é tão difícil afastar-se dele. Ou seja, não é «a gente» que freqüentemente peca pela gula, mas, sim, «eu».
Quando Deus através do padre nos absolve, Ele separa o pecado do pecador, Ele rompe o laço que liga o pecador ao seu pecado. «O Bom Deus no momento da absolvição, lança nossos pecados sobre seus ombros», dizia o Cura d’Ars. «Como minha vela que nesta noite se consumiu inteiramente, eles desapareceram, eles não aparecerão nunca mais.»
Além disso na absolvição, Deus nos dá uma força nova para vencermos nossas habituais tentações. Não temamos repetir a cada confissão o mesmo pecado até que o Senhor nos liberte. Batamos à porta até o momento em que seremos perfeitamente libertados, mesmo que seja durante a metade da nossa existência.
No mesmo instante em que o padre pronuncia as palavras da absolvição, Deus perdoa. Ele obedece diretamente a oração do padre e eis o penitente «santo e irrepreensível diante dEle no amor» (Ef. 1,4). E por este mesmo fato, é toda Igreja que se torna mais bela, mais pronta a acolher a vinda do Salvador. Neste momento, todas as cadeias que nos tornavam escravos se abrem e nos tornamos livres. O Amor de Deus, manifestado em seu perdão, nos dá a liberdade dos santos…
Recebendo regularmente a absolvição, pouco a pouco, a vida muda… O penitente começa a se revestir da veste branca das núpcias do Cordeiro, a viver mais além. Que ninguém hesite então em «utilizar» os ministros da misericórdia, dando o perdão de Jesus sem dúvida, eles serão introduzidos em uma maior intimidade com a Pessoa do Espírito Santo e se alegrarão um pouco mais cada dia, por serem padres!
1. Adrienne von SPEYR, A Confissão
