• 2 de julho de 2009
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Ele vos acompanha

De um Ponto Coração a outro n° 24, setembro de 1998

No momento em que a sua partida se aproxima, em que chegou o tempo de soltar as amarras, os sentimentos que habitam os seus corações, sem dúvida, são múltiplos. Alguns dentre vocês talvez estejam habitados por uma alegria superabundante : « Ah ! Como eu gostaria que a hora chegasse logo! Que demora ! Sinto uma tamanha correspondência entre o desejo do meu coração e esta vida que me é proposta ! » Outros experimentam, talvez, um certo temor: « Eu me comprometo, mas será que estarei à altura disto ? É tão exigente! Será que chegarei até o fim ? » Outros, ainda, vivem este compromisso com uma real confiança: « Aquele que me chamou saberá me acompanhar a cada instante. » É possível, enfim, que no coração de cada um, todos estes sentimentos estejam um pouco misturados e sobrevenham sucessivamente. Todavia, não teria também, em cada um de vocês, queridos Amigos das Crianças, uma espécie de apreensão da solidão experimentada como uma espécie de angústia latente: “Vou deixar meus amigos, minha família. Vou estar longe de todos aqueles que amo, de todos aqueles a quem, geralmente, me confio. Sobre quem me apoiarei?”

Meditar sobre este medo que, no fundo, é terrivelmente universal, é retomar consciência da realidade a mais concreta e a mais essencial de nossa existência de cristãos, que podemos assim formular: O Espírito Santo permanece em nós.

O mais cruel dos sofrimentos

HÁ anos, somos testemunhas de inumeráveis sofrimentos. É o sofrimento causado pela miséria: a da fome – bem diferente do pequeno buraco no estômago – que impulsiona a se prostituir ou a mandar seus próximos para a rua para que eles ganhem algum dinheiro; a da incerteza do amanhã e da promiscuidade...

É o sofrimento causado pela doença: a do corpo que grita e não encontra nenhum alívio... É o sofrimento da ociosidade: a da falta de trabalho que dá a impressão de ser inútil, de estar sobrando.

Mas nenhum sofrimento nos pareceu doloroso, destruidor, lancinante como o da ausência de comunhão. Imediatamente, conduz ao pensamento do suicídio e a tudo questionar sobre o próprio sentido da existência. Em contrapartida, parece que quando alguém é amado, quando se sente acompanhado, é capaz de afrontar as piores adversidades.

Isso diz muito respeito ao ser humano e as suas aspirações mais íntimas. Esta sede vital que ele descobre, freqüentemente, a partir do sofrimento que o habita quando se sente rejeitado, revela que ele é um ser feito para a comunhão. Ele não pode se satisfazer em ser uma ilha, um deserto, uma morada vazia... Precisa de um Outro... Ele é um grito para o outro... Aspira a um encontro que construa sua vida e a transforme interiormente... Enfim, o ser humano é o homem do casamento. Um casamento que lhe permite desposar aquilo que ele é, aquilo que são os outros, aquilo que Deus é, aquilo que é a realidade que o rodeia, aquilo que são os acontecimentos... E, ao mesmo tempo, lhe parece freqüentemente que se trata de um casamento impossível. Ele não sabe como fazer. Sob vários aspectos, ele não suporta a si mesmo, não consegue penetrar na gruta do outro, bem que queria às vezes entrar em relação com Deus, mas isto lhe parece algo impossível...

Em Pontos-Coração ninguém escapa à constatação desta impotência. Ela toma mesmo um caráter ainda mais dramático que em outras circunstâncias, na medida em que nossa missão é precisa e unicamente esta: a de desposar. Trata-se, então, de uma missão impossível, oferecida a um homem habitado por uma sede que finalmente o corrói por dentro, pois ele não pode achar como satisfazê-la?

Habitados pelo Espírito

Sim, é preciso humildemente reconhecer que o homem está longe de ser um mestre em comunhão, um artesão da paz quando é entregue às suas próprias capacidades, mas é contar sem o fato de que ele é um ser habitado... É um vaso de argila que contém um tesouro incrível, nos diz São Paulo... É um campo que esconde uma pérola preciosa... É um templo onde repousa o seu Deus... Esta é a formidável notícia: no homem mora o Espírito Santo! E este Espírito não é outra coisa senão o Espírito de Deus, o Espírito da verdade, o Espírito de comunhão. Ele é Aquele que faz com que tudo se torne possível...

Se entre nós existem relações de confiança, não é então por sermos mais hábeis que os outros... Se podemos ser enviados a lugares que parecem assustadores devido miséria, não é por termos uma aptidão em viver no inferno... É mais simplesmente, porque contamos sobre um Outro a quem jamais vimos, do qual a voz é mais discreta do que a brisa da tarde, e que, no entanto, é capaz de revolucionar o mundo: o Espírito Santo. Não O vimos porque Ele é íntimo demais a nós mesmos, quase não o escutamos porque Sua voz vem de muito perto! A única coisa que podemos dizer dEle, é que Ele nos acompanha. « Não vos deixarei sozinhos! », prometeu Jesus.

Com Ele nos preparamos para partir. Com Ele amanhã partiremos. Com Ele mais tarde ainda, voltaremos. Ele está com aqueles que são enviados, assim como Ele está com aqueles que ficam. Ele está com aqueles de quem, em breve, descobriremos o rosto, assim como Ele está com aqueles a quem deixamos. Ele faz a comunhão de todos... A cada instante, Ele torna presente todos a todos... E Ele leva aqueles que O amam, à glória do Pai...

Bem-aventurada Trindade !

Porque o ama infinitamente, o Pai é todo dado ao Filho, é todo olhar ao Filho, encontra Sua dileção no Coração do Seu filho bem amado. Porque O ama infinitamente, o Filho é todo dado ao Pai, é todo olhar ao Pai, encontra Sua dileção no Coração do Seu Abba. O Pai e o Filho são assim totalmente dados um ao outro... O seu amor os empobreceu totalmente... E, no entanto, neste extremo despojamento, são eles, os ricos do dom mais precioso: O Espírito Santo, fruto do Seu amor, o Amor mesmo. O Espírito que será dado a Cristo como regra ao longo da Sua peregrinagem terrestre, o Espírito que torna presente o Filho ao Pai e o Pai ao Filho, o Espírito chamado a conformar o rosto de todos os homens àquele de Jesus Cristo.

De cada um de nós, o Espírito é o amigo mais íntimo, o companheiro mais fiel. É tão unido a nós que poderíamos pensar que é ausente... É tão eloqüente que poderíamos pensar que é mudo... É tão fecundo que poderíamos pensar que é ineficaz. Isto porque Ele age no mais interior e é para nós um convite constante a descer mais baixo... Aquele que vive na superfície do seu ser, aquele que se consagra somente às coisas que passam, aquele que não se deixa atrair pelas coisas do interior tem dificuldades em encontrá-Lo... E mesmo se o Espírito não cessa, de lhe dizer: « Venha à fonte ! », o barulho que o chama a viver fora é tão grande que não o deixa ouvir esta doce voz do Amor, e ele vive a sua humanidade no nível mais horizontal, mais baixo, mais insignificante. E quanto mais ele sai dele mesmo para encontrar remédios para o peso da solidão que o acabrunha, mais esta solidão se amplia: nem a música, nem o barulho, nem os amiguinhos, nem o álcool, nem o trabalho exagerado o apazigua. No sentido estrito, lá está o drama mais terrível e, infelizmente, o mais comum.

O Espírito Santo, um Espírito de comunhão

O Espírito, Ele quer nos estabelecer na comunhão com o Pai e com o Filho. Ele sabe que a solidão não é o nosso destino. Ele murmura em nós « Abba » pois somos filhos e através deste murmúrio, docemente Ele quer nos lembrar disso. Ele nos revela o rosto do Pai revelando o rosto do Filho. Ele nos ensina a pronunciar o nome que faz correr em nós a Vida. É assim com a oração em Pontos-Coração, como, aliás, em toda parte: ela não consiste em fórmulas mágicas, não é um esforço violento do nosso cérebro, é um abandono à obra do Espírito em nós, que quer nos estabelecer na comunhão com o Pai e o Filho, melhor ainda, que quer nos identificar ao Filho para que Nele sejamos todo olhar para o Pai, apaixonados pelo Pai, inteiramente entregues nas mãos do Pai. E esta dependência toda filial, fundada sobre a fé, é como a rasgadura desta espécie de solidão ontológica que o pecado causou em cada um dos nossos corações. Como São Francisco, ao sair de terríveis semanas de provas gritava e dançava na rua, dizendo : « Deus é meu tudo », nós também podemos sair nas ruas do mundo, cantando : « Eu estou pleno! Tenho um Pai ! Sou filho e filha ! Sou filho e filha do Amor ! » A oração não é outra coisa senão este reconhecimento da paternidade de Deus sobre mim, senão a expressão da alegria que me habita, uma alegria mais forte que todos os desesperos, que todas as provas, que todas as preocupações, a de ser filho de Deus.

Se Ele nos estabelece na comunhão com Deus, o Espírito nos estabelece na comunhão com cada homem. Ele nos ajuda a nos reconhecer « irmão universal ». Em nenhuma parte me sinto estrangeiro, porque amo a todos a quem encontro. Sou, talvez, ainda um pouco desajeitado na expressão desse amor, estou ainda longe de ter entrado em todas as particularidades da cultura de meus amigos, mas os amo. E este amor que pode comovê-los, não é outra coisa senão a expressão em minha humanidade, do amor de Cristo por eles. Posso chamar todos pelo nome. O encontro que faço com eles, mesmo se parece dos mais insignificantes, é para mim um encontro de uma nova espécie: ele se situa essencialmente ao nível do coração e atinge cada um naquilo que ele tem de mais íntimo, de mais pessoal. Nenhum é comparável ao outro: O amor a cada um se adapta. E por causa disto, é um encontro que traz um fruto desmedido: ele oferece a alegria, faz renascer a esperança, é uma visita de consolação. É, a cada vez, uma Visitação! Uma espécie de Pentecostes! O Espírito Santo acompanha vocês! Ele cumpre a missão de vocês! Ele é através de vocês o único Consolador.

Compreende-se então, porque Cristo pedia aos seus discípulos para partir de mãos vazias: sem “trocados”, sem cajado, sem um par de sandálias para troca. É que uma só coisa parece ser necessária para fazer a Sua Vontade: O Espírito Santo. Todos aqueles a quem foi dada a alegria de ficar junto a vocês hoje, estão aqui como os discípulos em torno de Maria, como as multidões à espera perto do Cenáculo: Eles estão aqui para suplicar as línguas de Fogo que lhes invadam! Em um grande grito comum, chamemos o Consolador, peçamos-Lhe para derrubar todos os obstáculos à Sua presença que, consciente ou inconscientemente, colocamos em nossos corações – quero sobretudo, falar do orgulho, do terrível orgulho ! – e que O impedem de agir em plenitude. Que esta catedral, em eco à sede mais íntima de cada um, ressoe deste vasto grito, deste grito mais vital : « Venha! », deste grito dos pobres dos quais somos tão profundamente: « Venha! »


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