• 28 de novembro de 2008
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«E Maria ficava ali, de pé...»

Missa de Envio, Ourscamp, 15 de setembro de 1991 Padre Thierry de Roucy Queridos Amigos das Crianças, Irmãos e irmãs bem amados,

PURA coincidência: seu envio em missão aconteceu no dia de uma festa que, mesmo se ela foi um pouco ofuscada pela celebração dominical, esclarece perfeitamente a sua missão: a de Nossa Senhora das Dores ou, como se diz no Oriente, a festa da Compaixão de Maria! Esta festa fala mesmo tão forte da nossa missão, que eu a instituo hoje festa patrona da Obra Pontos-Coração.

Eu não lhes peço nenhuma outra coisa, senão de juntar-se agora à Maria ao longo da Via Sacra, Maria ao pé da cruz do seu filho. De juntar-se a ela não de uma forma puramente física – que importa isto! –, mas habitar seu coração, viver em seu coração. É que a missão de um Amigo das Crianças, não é nenhuma outra, senão a de ficar ali, ao pé de todas as favelas do mundo, de todas as misérias do mundo para « sofrer com », para consolar, para oferecer o mais doce sorriso de amor. É, segundo a maravilhosa expressão do papa Paulo VI, de « estar no centro da Igreja como um manômetro, um instrumento sobre o qual se repercutem as pressões, as feridas do corpo de Cristo, digamos antes: da humanidade sofrida». E « nós temos a certeza de que esta longa paixão dos homens é consolada por nossa compaixão» (27 de março de 1964).

Maria fica ali. E nós ficamos surpreendidos com a sua passividade, e ao mesmo tempo, com a extraordinária intensidade da sua Presença. Às vezes, ela é representada de joelhos, ao pé da cruz, choramingante, aniquilada. O apóstolo João, verdadeira testemunha deste mistério inefável, nos diz que ela está de pé e não podemos imaginá-la de outra maneira. Ela é impulsionada ao coração do Seu filho como para recolher no vaso de seu ser, todo o Seu sangue. Ela é impulsionada aos Seus olhos como para entrar em Sua alma, ela é impulsionada à Sua boca como para não perder nada do Seu grito, para recolher o último silêncio do Verbo. Ela vive com Ele uma união no sofrimento, ou melhor, uma união no amor, que não é outra coisa senão a perfeição da compaixão.

Ela não faz nada, ela não grita, não espanca os guardas para que eles desamarrem Jesus, ela entra plenamente nos desígnios do Pai e consola seu filho através do simples amor do seu coração. Nenhuma outra coisa, aliás, poderia tê-Lo consolado tanto. Sua esperança é total.

Ela não faz nada. E ao mesmo tempo nada é mais eficaz junto ao Filho do que a plenitude da sua presença. Ela não diz nada. E ao mesmo tempo nada expressa melhor seu amor que este olhar imensamente atento a Ele, que O consola infinitamente. Maria se cala, e nunca houve declaração de amor mais verdadeira, mais forte do que este silêncio da cruz. Maria se cala, e nunca houve união mais forte que esta união. Seu silêncio é oferenda perfeita de todo o ser, é abandono total. O Cristo ferido se entrega à Igreja em sua inocência. A Igreja, em Maria, se abandona perfeitamente ao seu Esposo num abandono total à sua vontade: « Fiat voluntas tua ! » E esta união, sem barulho, sem nem mesmo o mínimo gesto, é a mais fecunda de todas as uniões.

Vocês vão partir, queridos Amigos das Crianças. Quer vocês partam para a Índia, Colômbia ou Romênia, sua viagem lhes conduz ao mesmo destino: lhes leva ao Gólgota. Tentamos fazer-lhes aprender a língua das crianças às quais vocês irão elevar seus olhares, mas não lhes é pedido primeiramente uma palavra. Lhes é pedido uma presença que seja eloqüente. Lhes é pedido um olhar que seja consolador. Lhes é pedido um abandono que seja total. Segundo a bela palavra do jovem mártir libanês, Genadios Mourany, lhes é pedido que « todos os seus projetos de apostolado se reduzam a viver de amor». E vocês verão quão pouco é suficiente, quando existe o amor – um amor violento, um amor constante, um amor pleno de delicadezas – para consolar aqueles que « a sorte » jogou em condições de vida pavorosas, sub humanas, até mesmo sub bestiais. Lembrem-se daquele grito de dona Gertrude – nossa amiga do lixão, em Salvador – : « Mesmo se catamos lixos, nós não somos nem cachorros, nem porcos, mas homens. Deus não nos rejeita. Não temos um coração? ». Vocês não farão, senão repetir isto a todos aqueles que, contrariando dona Gertrude, o poderiam ter esquecido.

Eu lhes suplico de não perder nenhuma ocasião de olhar com amor, lhes suplico de «exagerar o amor», como o diz também Paulo VI. Eu lhes suplico de não manterem-se à distância, mas de aproximarem-se bem perto da cruz dos nossos amigos, juxta crucem, ali ao lado dela, tão perto dela que aqueles que ali estão pregados tenham a impressão de que vocês estão pregados com eles, que seus destinos estão irremediavelmente ligados aos deles. E de fato é assim, porque é o mesmo sangue que corre em nossas veias: o sangue do Deus salvador; é assim, porque se é irmão de uma forma incrível. Não existe nada mais próximo de um homem do que um outro homem porque não existe nada mais próximo de um homem do que Deus. Não existe nada mais próximo de um homem ferido do que outro homem ferido porque não existe nada mais próximo de um homem ferido do que Deus que se fez homem para unir-se a todas as feridas do homem.

Ir até o Gólgota com Maria, é finalmente como viver uma missa constante. A Eucaristia deverá ser o centro das suas casas, das suas vidas, dos seus corações! Permitam-me, citar este belo trecho de uma carta de Isabelle, uma Amiga das Crianças, que explica tão bem o papel da adoração em cada uma das nossas casas:

« A Adoração é muito importante para que nos ofereçamos a Deus, ainda mais que somos uma comunidade contemplativa.

« Quanto mais eu “contemplo” mais O encontro “sob as espécies da criança” ; mais O contemplo, e mais O busco naqueles que eu encontro, mais Ele me é revelado no meio da miséria.

« Quanto mais O contemplo, mais acho belos aqueles que encontro, infinitamente amados, infinitamente procurados, infinitamente amáveis.

« Mais O contemplo, e mais me sinto infinitamente amada, e somente aqueles que sabem que são infinitamente amados podem testemunhar, manifestar com toda liberdade o amor infinito àqueles que eles encontram. « Mais O contemplo, mais me torno verdadeiro instrumento de misericórdia, de compaixão e de consolação.

« Aqui, não se tem necessidade de tal ou tal Amigo das Crianças, mas de Cristo.

« Então, se posso deixar-me invadir pela Sua presença, à força de contemplá-Lo, poderei verdadeiramente servir as crianças, deixando meus braços tornarem-se os Seus, meu olhar tornar-se o Seu…

« E tudo isto, não é fantasia, bem ao contrário. É terrivelmente concreto, até nas menores coisas. »

E estes tempos de adoração cotidianos que, com Maria, cada dia vocês tomarão, lhes prepararão para o sacrifício da missa onde entregarão a Deus todas as misérias dos homens, suas próprias misérias, e onde vocês deixarão o Senhor transfigurar suas vidas, transfigurar a existência de seus próximos. Vocês verão, pois, que suas favelas em breve não serão mais favelas, mas já uma parte do Reino dos céus porque ali será vivido o amor como se vive no céu. Verão talvez que não mais aspirarão por belos palácios habitados pela indiferença e o frio… Vocês verão quanto um olhar que atinge o fundo dos corações, transfigura a nossa visão do universo!

Queridos Amigos das Crianças, estas favelas tornar-se-ão o Reino porque ali, vocês descobrirão e adorarão a presença de Jesus, porque ali suplicarão a presença de Maria, como fez, tão notavelmente, uma Amiga das Crianças junto a Suely:

« Nós acabamos, Suely e eu, de visitar Geraldo no hospital. Convido Suely para a missa. Ela aceita com alegria apesar do cansaço. Muito emocionada durante a celebração eucarística, por duas vezes ela chora. Na saída da missa, ela sucumbe sobre uma cadeira, vítima de tonturas e de dores estomacais terríveis. Diagnóstico fácil: “Fome”. Antonieta, médica da paróquia, lhe injeta um calmante antes de levá-la à sua casa, de carro. Enquanto espera ela grita de dor e geme: “Oh, meu Deus ! Oh, Mainha !” Desde a hospitalização de Geraldo, ela não come mais nada, e antes, ela não comia senão pão e café! Então, eu tomo Suely em meus braços, ela repousa a cabeça em meus ombros. Nós temos a mesma idade, mas ela parece ter quinze anos a mais. Sempre, me lembrarei do seu grito: “Oh, Mainha ! Oh, Mainha !” Escutando-a, eu lembro da Carta aos Amigos das Crianças sobre o terço: “Vocês desejaram ir para onde, às vezes, somente a presença de uma Mãe é suportável…” “Oh, Mainha !” Não é mais tempo de longos discursos sobre a fome, não é mais tempo de longas orações, é o tempo do grito. Tenho a impressão de tomar uma pequena criança em meus braços. Sinto esta mulher se torcer de dor, suas lágrimas molham o meu rosto e eis que meu coração vibra com seu grito. Com Suely, eu chamo Maria e grito: “Oh, Mainha… Mainha… Mainha…” »

E a Mãe ficava ali, de pé.

Não se pode duvidar.

Com a Mãe de todo homem, fiquem de pé junto deles para dizer-lhes que são infinitamente amados.


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