• 29 de janeiro de 2016
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Direitos tradicionais e valores fundamentais por Julián Carrón*

Corriere della Sera, 24 de janeiro de 2016, p. 30

Caro diretor, após meses de discussões sobre as uniões civis, o projeto de lei Cirinnà chega ao Parlamento, desencadeando uma nova manifestação nas ruas, aliás, duas: uma favorável e uma contrária. Quem apoia o projeto reclama o reconhecimento de novos direitos; quem se opõe a ele opõe-se para defender direitos tradicionais. Qual é a causa da dureza do confronto em curso? Uma parte da opinião pública reivindica estes novos direitos como uma conquista da civilização, a outra os considera um atentado aos valores fundamentais da civilização ocidental. Por isso, ao redor deles se produzem rupturas sociais e conflitos políticos que parecem insuperáveis. Por que tanto fascínio e tanta aversão?

Perguntemo-nos onde está a origem dos chamados novos direitos. Cada um deles, em última instância, nutre-se de exigências profundamente humanas: a necessidade de amar e de ser amado, o desejo de ser pai e ser mãe, o medo de sofrer e de morrer, a busca pela própria identidade. Eis o porquê de sua atração e de sua multiplicação, com a secreta expectativa de que o ordenamento jurídico possa resolver o drama da vida e garanta “por lei” uma satisfação das necessidades infinitas próprias de cada coração.

A proposta Cirinnà nasce dentro deste contexto, com o intento de responder ao desejo de uma realização afetiva entre pessoas do mesmo sexo que se unem entre si, configurando novas formações sociais e exigindo seu reconhecimento. Com todo o devido respeito ao debate jurídico, aqui me cumpre ressaltar que o que está em causa é sempre o homem e a sua realização. Por trás de cada tentativa humana, há um grito por realização. Mas esta tentativa, por sincera que seja, é capaz de responder?

Nem sempre a cultura contemporânea, da qual todos fazemos parte, olha para as necessidades profundas do eu reconhecendo todo o alcance infinito das exigências humanas constitutivas; e, então, muitas vezes oferece respostas parciais e por isso inadequadas. Mas o desejo humano se deixa realmente encolher tão facilmente? Como nos ensinou Cesare Pavese, “o que um homem busca nos prazeres é um infinito, e ninguém renunciaria jamais à esperança de conseguir essa infinitude”. A gota jamais conseguirá preencher o copo da vida. Um exemplo disto é o testemunho – com que deparei recentemente – de um homossexual que trabalha com moda, tem um bom trabalho e uma relação com um companheiro. A um casal de amigos que encontrou por acaso, revelou-lhes que não estava feliz e disse-lhes: “É como se me faltasse algo, é como se eu vivesse a minha vida a partir de uma reação, de uma defesa. Isto me deixa inquieto”. Inquieto, como todos. Todos tendemos continuamente a reduzir o nosso desejo a uma imagem criada por nós, porque assim julgamos ter a solução ao alcance das mãos. Mas o homem real nunca se contentará. Pelo contrário, o preço a pagar é muito alto: sufocar por trás das grades da prisão que se construiu. A insatisfação pode ser restaurada com a aprovação de uma lei? Muitos acreditam que sim, e isto explica a luta acirrada para aprová-la. Por outro lado, quem considera que isto mina as bases da sociedade opõe-se muitas vezes com a mesma obstinação, sem conseguir desafiar minimamente a posição que combate, aliás, alimentando-as.

“Quem nos libertará desta situação mortal?”, já se perguntava São Paulo. Somente um encontro vivo que exalte a humanidade do homem e lhe restitua o respiro original é que poderá libertá-lo da ditadura dos seus desejos reduzidos, fazendo nascer-lhe a vontade de outra forma de vida; somente um encontro assim poderá constituir uma resposta adequada às reduções que vemos e respeitosa da liberdade alheia. É como a relação de amizade que aquele casal ofereceu ao amigo homossexual, que o levou a dizer: “Seria bom viver o trabalho e os relacionamentos como você e sua mulher os vivem. Vocês são especiais de uma forma normal. É bom falar com vocês”. E depois perguntou: “Como vocês fazem para viver assim?”.

É uma prova daquilo a que Dom Giussani sempre nos chamou a atenção: “Numa sociedade como esta, não se pode criar nada de novo a não ser com a vida: não há estrutura nem organização ou iniciativa que resista. É só uma vida diferente e nova o que pode revolucionar estruturas, iniciativas, relações, tudo, enfim”. A mesma vida que desafiou a sede da mulher da Samaria, que os cinco maridos não haviam satisfeito.

Não é isto, talvez, o que todos esperam de nós, cristãos? “O que falta não é tanto a repetição verbal ou cultural do anúncio. O homem de hoje espera, talvez inconscientemente, a experiência do encontro com pessoas para as quais o fato de Cristo é realidade tão presente que sua vida mudou. É um impacto humano o que pode estimular o homem de hoje: um acontecimento que seja eco do acontecimento inicial, quando Jesus levantou os olhos e disse: ‘Zaqueu, desce rápido, vou a tua casa’” (Dom Giussani). Aqui nos é indicado o método por meio do qual o cristianismo aconteceu e sempre reacontece. Em outras palavras, Cristo não é um adorno para uma solução que se busque em outro lugar, mas é a própria chave da solução. Só Cristo, como acontecimento presente na vida das pessoas, é capaz de libertar o homem da sua redução e de fazê-lo desejar e experimentar aquela plenitude para a qual é feito. “Seria bom viver o trabalho e os relacionamentos como você e sua mulher os vivem”. Sem uma experiência semelhante de libertação, qualquer resposta dita “concreta” será sempre insuficiente. Cada um de nós tem provas diretas disto em nossas vidas.

Qual é, portanto, a verdadeira contribuição que cada um de nós cristãos é chamado a oferecer ão debate em curso, na fidelidade à tradição da Igreja e aos seus ensinamentos, que não estão em discussão? “Sabemos que a melhor resposta à conflitualidade do ser humano, do célebre homo homini lupus de Thomas Hobbes, é o ‘Ecce homo’ de Jesus que não recrimina, mas acolhe e, pagando pessoalmente, salva”. É desta certeza testemunhada pelo Papa Francisco que podemos recomeçar na relação com qualquer pessoa, para “construir juntamente com os outros a sociedade civil” (Florença, 10 de novembro de 2015), oferecendo – até onde for possível – a nossa contribuição para melhorar as coisas, em vista do bem de todos.

* Presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação


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