• 11 de maio de 2012
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Carta de Rita, missionaria no Honduras, março de 2012

“Maria permanece no lugar no qual ninguém quer ficar: permanece ao pé da cruz.”

Queridos Amigos, É com muita alegria que lhes escrevo depois de mais de um ano. Já era tempo de dar noticias e de partilhar um pouco da missão. Nesses últimos tempos me perguntava se valia a pena seguir relatando a vocês as coisas que tenho vivido aqui. Será que esses acontecimentos ou casos lhes servem de algo? Bom, assim eu estava cheia de dúvidas e perguntas. Por isso parei de escrever, o que já não era tão frequente. Porém, quando começou a quaresma me veio o desejo de compartilhar com vocês, mesmo que sejam só sofrimentos ou coisas tristes, porque carregar estes acontecimentos, muitas vezes trágicos, “sozinha” ou de forma “pessoal”, em oração ou como seja, sem permitir que se faça ECO exterior seria, um pouco, uma perda de tempo em minha missão.

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A comunidade do Honduras com Rita

Para começar, a comunidade está de cara nova, faz quase um ano que chegou Nicolas (que passou 7 anos, creio, na Fazenda do Natal), alguns meses atrás chegou Florência, argentina, Victoria, americana, e assim formamos uma pequena comunidade com cinco membros: dois voluntários e três consagrados com o Padre José. Nosso bairro mudou muito nesses últimos meses. A presença da mara (quadrilha do crime organizado) se fez mais visível, coisa que, às vezes, choca um pouco e dá muita tristeza, sobretudo porque nossos jovens e crianças são tentados, alguns mais que tentados, estão comprometidos com a venda de drogas ou com a cobrança de imposto de guerra (cota que os mareros (traficantes) impõem aos que ganham a vida com um pequeno ou grande comércio, ou seja, uma biboca ou um supermercado, ninguém escapa). Por causa desse imposto, muitos perdem seu “ganha pão”, ou a vida por não poderem pagar. Esse é um dos dramas que vivemos nestes últimos tempo. Quero apresentar-lhes a nossa amiga Maricela (uma das vítimas da mara) que tem 17 anos e um bebê de um mês. Maricela tem uma história muito complicada e triste; em síntese lhes digo: ela teve o pai e o avô assassinados pela mara por razões que não conhecemos. Por terem perdido o pai muito cedo, Maricela com a irmã, tiveram que trabalhar fazendo e vendendo tortilhas para sobreviverem. Elas eram bem pequenas para o peso que tinham que carregar e estavam expostas a tudo nas ruas, e assim foi crescendo em Maricela o fascínio pela rua e pelas coisas erradas que eram apresentadas a ela. Faz mais ou menos dois anos que Maricela começou a aderir as propostas da vida fácil, a aproximar-se da mara, a fumar e a beber, deixando de vir ao Ponto Coração (porém sempre guardou um olhar de fidelidade e respeito sobre nós), ficando cada vez mais rebelde com sua avó, as tias, caindo cada vez mais baixo, até o ponto de tornar-se mulher de um dos mareros. Este, por infelicidade, deu um passo em falso e Maricela foi junto com ele. Por castigo, os chefes decidiram surrá-los a ponto de deixá-los hospitalizados, com o aviso que tinham que desaparecer do bairro senão morriam, Maricela estava grávida em meio a tudo isso, foi surrada quase à morte, vagou sem rumo buscando onde viver até o momento que, vendo aproximar-se o tempo de dar a luz, veio para a casa de sua avó onde passou um fim de semana. Fomos, por casualidade, nesta rua e a encontramos. Ela estava muito feliz, e algo em seu rosto estava diferente; parecía mais bonita, maternal, tinha um sorriso de mãe. Logo teve que fugir, outra vez, arrastando sua grande barriga, pois os mareros se deram conta que ela tinha voltado para o bairro e ameaçaram sua avó, dizendo que se Maricela permanecesse ali, sua casa seria queimada. Desta forma Maricela foi dar a luz sem o apoio da familia, tendo nascido uma linda menina. Ela nos convidou para conhecer sua filhinha que estava num bairro distante de nós, nada calmo e que parecia mais perigoso que o nosso. A princípio eu tinha resistência em ir. Por um lado queria vê-la mas, por outro, tinha medo pelo que podia encontrar e pelo risco que podíamos correr. Resumindo, era porque “ninguém queria ir ao Gólgota” e eu tão pouco quería neste momento. Graças a Deus que em Ponto Coração Deus não nos deixa entregues à nossa própria sorte. Nós temos a comunidade, que é o rosto de Cristo, que nos ajuda abraçar, a cada instante, nossa cruz e, neste momento, foi o Padre José que animado e nada temeroso, me ajudou a lançar-me. Maricela nos esperava no caminho com o bebê e nos levou onde estava vivendo por um tempo, enquanto esperava para se mudar porque ali também ela corria perigo, (era a casa da mulher do avô do bebê). Ela estava aflita e com medo, porém me deu muita alegria vê-la com sua filha, vê-la como Mãe. Tudo mudou: em seu olhar tinha ternura e muito arrependimento. Ela nos disse várias vezes: “me dá tristeza pensar que este bebê possa vir a ficar na rua” (ela se referia a possibilidade de morrer) e repetiu várias vezes: “se pudesse voltar no tempo e apagar todas as besteiras graves que fiz...” e olhava o bebê. Seus olhos tinham lágrimas, era um momento lindo que só quem tinha conhecido a Maricela podia entender a profundidade dessas palavras e a alegria desse momento. Me deu a impressão que Maricela descobriu o verdadeiro valor da vida e o quanto vale viver!! Peço-lhes de todo coração: rezem neste tempo de Quaresma e Semana Santa por Maricela, para que as circustâncias não venham, mais uma vez, escurecer seu coração, nem endurecê-lo diante das situações que ela terá que enfrentar. Se a morte chegar para ela, que possa partir como uma verdadeira mãe, como uma verdadeira Filha de Deus: com dignidade e com o olhar posto Nele.

Bom, desejo-lhes uma Semana Santa, acompanhando o Crucificado. E uma Feliz Páscoa na alegria do Ressuscitado!

Abraço a todos,

Rita


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