• 4 de setembro de 2015
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Carta aos padrinhos de Leonardo, Fazenda do Natal

...Olá, eu sou Leonardo, tenho 25 anos, nativo de Salvador. Cheguei aqui tem um pouco mais de dois meses, conheci a Fazenda por um amigo das crianças e quando finalmente pude sair de missão, saí. Os dias tem sido bem enriquecedores, está com as crianças, meus irmãos e irmãs de comunidade, visitando os lugarejos vizinhos, tudo em um bom ritmo de oração, tem sido bem mais do que esperava. Tem sido muito bom!

Candeias, 10 de agosto de 2015.

Aos meus padrinhos e minhas madrinhas.

Os dias são suaves, porém são tão preenchidos, que quase não me dei conta que já passou mais de um mês desde que cheguei por aqui. Sendo assim, chegou o momento de lhes escrever, para por cada um de vocês, que zelam por mim, a par de minha missão.

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Há três pilares que sustentam meu dia a dia por aqui: a vida de oração, a vida em comunidade e os apostolados. De fato, fora deste três movimentos cotidianos, não será possível entender esse mês que se passou, muito menos os que hão de vir. Por isso, tentarei, razoavelmente, apresentá-los.

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Meu dia começa às 6h da manhã, quando o sino da Igreja bate, alertando-me que as laudes (orações matutinas) será às 7h. Ao levantar, já estou mergulhado na vida comunitária. Dividindo a casa com outras pessoas, formamos um pequeno núcleo familiar, este núcleo está inserido dentro de um convívio maior, composto por outras casas distribuídas pela fazenda. Atualmente, estou na minha terceira moradia, consequentemente, estou experimentando meu terceiro ritmo comunitário. Na minha primeira semana, estive com um casal de missionários que acolhe durante a semana duas crianças que são da Coroa, um bairro de Simões Filhos. Nesta casa, experimentei uma importantíssima acolhida, pois eram meus primeiros passos como residente na Fazenda. De fato, está presente na Santos Inocentes (o nome da casa, todas possuem nome de santos) confortou-me bastante. De alguma forma, aqueles dias possuíram a exata dimensão que eu precisava para me sentir incluído na Fazenda, assim como me trouxe a confiança que me faltava perante a minha decisão de partir em missão. Após a primeira semana, troquei de casa, passei a morar na Santa Terezinha. Lá, me vi envolvido por um ritmo totalmente outro, descobrindo, pois, que cada casa, apesar de buscar viver orientada pelo mesmo carisma de compaixão e consolação, tem a sua própria cadência. Agora, fechando meu primeiro mês e abrindo o segundo, estou na São Miguel. Esta estadia ocorreu-me em caráter extraordinário, uma vez que os missionários que aqui residem, durante esta semana, não estarão presentes, assim, fui convidado a atender algumas demandas da casa. Aqui, partilho minha vida com dois rapazes. Um se chama Daniel, o outro se chama Diego, porém é mais conhecido como Didi. Ele é um jovem especial, que assim como cada um de nós, requer zelo e atenção, porém dado a sua condição, ele nos convida, sem muita cerimônia, à sua presença. Toda a minha missão possui laços estreitos com Didi, desde minha primeira semana, já estive dividindo muitos momentos com ele, alguns ligados as suas necessidades mais básicas, outros de pura gratuidade, onde ultrapassamos todos os limites do simples cuidado e nos aventuramos no fértil terreno da amizade.

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Leonardo (de camisa azul), com a fraternidade Maximiliano Kolbe

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Às 7h da manhã, geralmente, estou na Igreja, onde, junto com a comunidade, recito salmos e hinos, entregando-me à oração. Desta forma, busco de todo coração, na força do Espirito, está unido a Igreja em seus louvores a Deus por meio de seu Filho, Jesus Cristo. Este momento, particularmente, me é muito importante, pois me permite a cada dia, está ligado a raiz de minha própria vida, que é Cristo. Consequentemente, ao lançar-me no dia, na medida em que abraço a graça, enxergo-me mais próximo daquilo que eu sou: alguém amado por Deus e destinado a transbordar este amor. Este simples olhar, porém pleno, transforma minhas relações com tudo a minha volta, de fato, quando me deixo absorver pelas atividades corriqueiras, distraindo-me, esquecendo-me do que me levou até elas, inevitavelmente, me perco, torno-me algo instrumentalizado. Mas quando o contrário se dá, percebo-me absolvido por cada situação que me encontro, pois, em cada uma, encontro realização, isto é, uma abertura para a realidade, onde eu sou eu mesmo de uma forma bem concreta.

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Compromisso de Leonardo

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Por volta das 14h começa o terço, de certa forma, este momento de oração abre as atividades da tarde. Duas horas antes, há o almoço no refeitório comunitário. Quase sempre, no começo, somos poucos e silenciosos, contudo, na metade do almoço a situação se transforma. De onde sentamos dá para ver a porteira, quando a condução escolar aponta, geralmente, em tom de brincadeira, alguém sempre fala: «A PAZ ACABOU», nos olhamos e rimos. De fato, o silencio obtuso que atravessa toda a manhã é posto fora, assim que as crianças chegam da escola. Tomadas por um misto de fome com ansiedade de contar as aventuras matutinas, elas sobem ao refeitório tão rápidas quanto podem, preenchendo de uma só vez toda a Fazenda, que agora, pela presença delas, vibra de uma forma totalmente diferente. Esse reencontro com elas, que saem para aula quando estamos indo para as laudes, me é extremamente revigorante. Os motivos de risos, as queixas, tudo que elas trazem alivia a fadiga que os trabalhos da manhã me trouxeram. Assim, dado o almoço, começo a me preparar para a tarde e quando o sino bate, apresso-me rumo a Igreja, para rezar o terço. Após o terço, tudo acontece muito rápido, comumente saímos para o apostolado. Contudo, tal como as mudanças de casa, também foram meus apostolados. Mudei algumas vezes, conheci alguns lugarejos e atualmente, de modo concreto, tenho apenas a visita a um centro de reabilitação para dependentes químicos. Na minha ultima visita, conheci um rapaz de São Cristóvão, que frequentava paulatinamente Itapuã, a ponto de conhecê-la tão bem quanto eu. Naquele momento, rir comigo mesmo, minha tese é válida, você sai de Itapuã, mas Itapuã não sai de você, fica o ranço.

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Quando chegamos do apostolado, a noite já caiu. Há um curto espaço de tempo entre a nossa chegada e as Vésperas (orações noturnas). Comumente, São Vésperas com Missa, quando esta não é pela manhã. Nesse novo encontro, nos meus melhores dias, é de um total júbilo, pois mesmo sendo pequeno e quebrado, nisso que me cabe, estou todo presente. Na Missa, ao cair da tarde, sinto-me como aquele filho que havia outrora se perdido, retornando a casa do Pai. Ao fim das Vésperas, há um rápido encontro na porta da Igreja, onde falamos de coisas triviais, sobre o dia que passou, sobre os dias que virão, essas coisas. Mas, muitas vezes, falamos de jantar, pois devido ao ritmo do dia, com suas diversas nuâncias, nos convidamos para jantar reciprocamente. Esses momentos à mesa, difere bastante dos outros, de certa forma, já não há mais pressa, bom ou ruim, o dia foi vencido. Sentamos e relaxamos, aproveitamos a companhia um do outro. Sinto que os verdadeiros traços de amizades começam a germinar nessa comunhão junto a mesa, principalmente quando a comida é boa! Terminado o jantar, intuo eu, que a amizade é bem regada com aquela água que escorre dos pratos lavados por mãos convidadas. Brincadeira a parte, de certo modo, os pratos encerram o meu dia, esta simples atividade realizada na maioria das vezes nas ultimas forças, aos meus olhos, é onde se dá a derradeira abertura a vida, a qual foi abraçada durante todo o dia, pois é por meio dela que eu me preparo para a ceia de um novo dia, dia este que desejo com muita esperança, que seja todo ele conforme a Vontade de Deus.

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Meus amigos, Ficamos em comunhão de oração, Rogo ao Pai que saúde nunca nos falte, Muito menos a esperança de uma Vida plena! Que Deus nos abençoe hoje e sempre! Daquele que lembra de todos vocês,

Leonardo Mendonça


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