• 30 de agosto de 2012
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As pequenas coisas

De um Ponto Coração a outro n° 29, dezembro de 1999

Bem ao fim do meu noviciado, fiquei fascinado por uma mulher. Pouco tempo depois, quando tinha então começado em Paray-le-Monial meus estudos de filosofia, fiquei fascinado por uma outra mulher. Sou fiel a cada uma delas há 25 anos mais ou menos. Me alimento de suas obras, tento me beneficiar da liberdade e do amor delas, aprendo a rezar com a ajuda delas. A primeira é uma russa que nasceu em 1896 e morreu em 14 de dezembro de 1985. Ela teve uma vida particularmente difícil, e teve que emigrar para a Inglaterra, depois para a América do Norte. Ela se chama Catarina de Hueck Doherty e fundou no Canadá uma bela família espiritual que se chama Madonna House. A segunda, nasceu na Suíça, em 1900. Ela foi médica, em Bâle e, como Catarina, casou-se duas vezes. Trata-se de Adrienne von Speyr que até o fim da sua vida foi acompanhada pelo Cardeal von Balthasar.

A primeira me comoveu por seu zelo, por sua radicalidade, pela seriedade com a qual ela concebeu sua maternidade espiritual. Ela me comoveu também por seu respeito para com os padres, por seu serviço aos pobres, pelo amor com o qual ela realizava as pequenas coisas. Ela se autodefinia como «enamorada por Deus», como «uma apaixonada por Cristo». E ela o era, realmente. A segunda me fascinou pela profundidade da sua contemplação. Com ela, o Mistério é sempre maior do que aquilo que se pode imaginar. Quer se trate do sacramento da Eucaristia ou da confissão, do mistério da Igreja ou da comunhão dos santos, do sentido da vida consagrada ou do matrimônio, em seu olhar tudo ganha uma riqueza inimaginável que torna o Mistério trinitário, em sua essência e em seu dom, mais belo, mais inesperado, mais infinito do que jamais se poderia por si mesmo percebê-lo, incrivelmente atraente.

Há dois outonos sucessivos, que eu vou para o Canadá, principalmente para ficar em Combermere, onde Catarina de Hueck fundou Madonna House e onde reside hoje a maior parte dos membros da sua comunidade. É um lugar fabulosamente belo. As casas se emparelham ao longo do rio Madawaska e no outono, nos dias ensolarados, tudo parece pegar fogo. Mas é sobretudo, um lugar de grande paz. Os membros da comunidade – « simples leigos» – totalizam uma centena e fazem coisas bem simples. Eles vivem juntos sob o olhar de Deus como em uma família. Eles não têm apostolados particulares. Muitas pessoas, todavia, passam em Combermere, mas os membros de Madonna House não organizam nada de especial para elas. Antes, eles lhes propõem entrar na vida deles. Então como eles, estes visitantes dormem em dormitórios, rezam, trabalham na fazenda ou na cozinha, fora ou dentro e à noite, jogam cartas bebendo uma xícara de chá ou lêem junto com outros, uma obra agradável. Tudo isto, se passa geralmente numa atmosfera de grande simplicidade fraternal.

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India

A medida em que os dias vão passando, é espantoso ver a que ponto se iluminam os olhos dos visitantes. Dir-se-ia que eles começam a ver além. Dir-se-ia que a fé e a esperança lhes permitem perceber um essencial, que eles parecem ter esquecido há muito tempo. Eu não tenho dúvida de que a oração influencia muito nesta transformação, mas creio também que ela se deve, sobretudo, à retomada do interesse pelas coisas simples, feitas com muito amor. Em outros termos, se poderia dizer que esta ressurreição é o fruto da magia das pequenas coisas. Hoje valoriza-se somente as grandes ações, as proezas, os recordes. Tudo aquilo que é escondido, humilde ou pequeno, é rejeitado, pois é visto como uma perda de tempo, como algo de degradante, até mesmo desumano. Esqueceu-se o valor de Nazaré. Compra-se máquinas para lavar roupas … comidas prontas...

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India

Esta desvalorização dos gestos humildes – forrar sua cama, passar cuidadosamente sua roupa, arrumar suas coisas, fazer a limpeza, engraxar os sapatos… – está ligada em nosso mundo a uma cruel perda de esperança. Diz-se que não há sentido em fazer estas coisas todos os dias e assim sendo, pouco a pouco, se começa a perder o sentido de toda a sua existência. São os que negligenciam isto que rapidamente não sabem mais onde estão. E se, junto com isto, eles se relacionam pouco com os outros e vivem num grande isolamento, com o qual, nos leva toda a civilização ocidental, a idéia do suicídio não tarda a vir ao seu espírito.

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No Jardim da Misericordia, índia

Para Deus tudo aquilo que é feito por Seu amor e que é realizado em seu Filho, é grande: varrer com amor, é maior do que fundar repúblicas por orgulho. O tesouro que podemos oferecer a Cristo e que nos abre o Céu é constituído destas pequenas coisas vividas no amor: « Seguimos o caminho dos pequenos deveres monótonos de todos os dias que poderiam tornar-se dons mais preciosos que aqueles dos três reis magos? Quais são estas pequenas coisas? Eis uma curta lista: lavar os pratos, arrumar, correr de um compromisso ao outro, atender aos toques da campainha e o telefone, acolher pessoas mal educadas ou desagradáveis, enfrentar situações desesperadoras nas escolas ou nos centros de catequese. « E no entanto, todas estas ações poderiam tornar-se uma cascata de pedras preciosas, de ouro pesado para carregar, de grãos de incenso que cobrirão toda a terra. » (1)

Aquilo que poderia parecer uma evidência e com freqüência ainda é, nos países mais pobres, deixou de ser para muitos entre nós. É necessário, que o escutemos sem cessar, assim como devemos nos lembrar sem cessar das Bem-aventuranças. É que ainda estamos longe de sermos estabelecidos na lógica de Deus, nos pensamentos de Deus… Julgamos segundo critérios que são contrários aos Seus. Temos sempre a tentação de edificar uma Torre de Babel, quando Deus nos pede para lavar as batatas. Catarina de Hueck ficava freqüentemente angustiada em pensar que seus filhos poderiam não viver essa realidade: «Esta noite, adormeci às quatro horas da manhã. Mas antes, um triste e lúgubre refrão, não saia da minha cabeça: “Senhor, quando eles compreenderão que partilhar vossa vida é também, apagar a luz, cuidar das suas roupas… que é reconhecer o sentido profundo de toda ação.” E adormeci escutando este refrão. Nestes últimos dias, refleti muito sobre nossa vocação. Parece-me que Nazaré é a pequena vila escondida onde devemos ir viver com a Sagrada Família para sermos curados. É lá, que aprenderemos estas pequenas coisas, as quais não cessamos de repetir que é necessário realizá-las perfeitamente, por amor a Deus. » (2)

Este segredo transfigura a nossa vida ordinária e a torna particularmente fecunda: « Vocês não vêem que a essência da nossa vocação consiste em fazer a ligação, entre uma vida ordinária e que parece insípida pela repetição das pequenas coisas, e Deus que é Amor? Então o tédio desaparece, e um dia passado a separar botões, torna-se magnífico. Se vocês o passam diante de uma máquina de escrever, com as costas doloridas e com o espírito embaçado pelo cansaço, este é um dia que contribuiu para o resgate de numerosas almas. Só Deus conhece o número. Nós devemos estar conscientes disto para ver esta relação. Senão é um dia perdido, e não é trágico pensar que o tempo, este dom de Deus tão precioso, foi desperdiçado (3) ? » Melhor ainda, parece que toda ação feita em comunhão com Deus nos liga intimamente a Ele, que em certo sentido, esta nos coloca em uma espécie de oração contínua que nos torna a todo o momento, transparentes de Sua presença.

Toda nossa vida entregue a Deus numa atitude de louvor, não é senão uma “pequenina coisa”. Mas cada uma, deveria ser feita perfeitamente e totalmente unida a Deus. Senão ela perde todo valor, não tem mais sentido nem razão de ser. « Isto dá uma grande liberdade. É inútil esforçar-se para sorrir ao fazer as pequenas coisas; o simples fato de que o seu coração se alegra, brilhará em seu comportamento, iluminará o seu olhar. […] « Como vocês poderiam viver uma verdadeira vocação sem dirigir a Deus cada um dos seus gestos e até mesmo a sua respiração? Esta não é a sua vocação se vocês não são capazes de pensar em recolher aquilo que vocês ou os outros esqueceram, para aliviar o trabalho de seus irmãos; se vocês não dão atenção às lâmpadas que estão inutilmente acesas; se vocês não estão inteiramente, coração, alma, pensamento em tudo aquilo que vocês fazem. É preciso partir, mas, por toda parte onde vocês irão, vocês terão certamente pequenas coisas a fazer. Tentem fazê-las com amor e vocês verão a diferença. Nossa vocação consiste em fazer as pequenas coisas colocando nelas todo o nosso coração. » Viver Pontos-Coração, finalmente não significaria somente estar presente às pessoas, mas também às coisas, às pequenas coisas, às mais pequeninas coisas…


1. Catherine de HUECK, Meus bem-amados, edição do Servo, Ourscamp 2001, Carta de 16 de dezembro de 1959 2. Idem., Carta de 14 de janeiro de 1960. 3. Idem.


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