• 10 de janeiro de 2014
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“AMAR É: ESTAR PRESENTE”, Manuele Carvalho

Manuele Carvalho de Souza

Punto Corazón San Martin de Porres Lima-Peru

Carta aos padrinhos n°3

Sexta-feira 6 de setembro de 2013

“AMAR É: ESTAR PRESENTE” Família, amigos e padrinhos, como estão?

Bem, esta é minha última carta em missão, e logo uma carta onde digo GRACIAS. Gracias, por me acompanharem todo esse tempo aqui em minha PRECIOSA ENSENADA.

Há oito meses atrás cheguei aqui no Peru pensando que ia revolucionar tudo, e finalmente descubro que foi esse país que me revolucionou por completo. Aqui eu descobri Deus.

É algo incrível quando se vivencia esta presença, porque é como se tudo levasse a uma busca de significado. A partir desse momento nada é um mero acaso, tudo nos leva a um porquê, a um para que, não para mim, é claro, e sim para Deus. Ele passa a ser a justa medida de todas as coisas. O que nos possibilita uma liberdade tão grande, porque não importa com quem estejamos ou onde estejamos, passamos a ser fortalecidos por essa constante presença, que sem sombra de dúvida nos ultrapassa.

Todos os instantes passam a ser de uma plenitude tão grande, a cada mínima coisa, vamos procurando a presença de Cristo. É como se a todo tempo estivéssemos nos perguntando: o que Ele deseja com isso? Qual o propósito disto para Ele? Como podemos sair mais fortalecidos nesta circunstância? Como podemos vivenciar determinada ocasião em presença de Deus?

Porque, de fato, Ele está nas mais pequenas coisas. Viver em Cristo para mim é exatamente isto: buscar viver a plenitude divina nas coisa que a princípio tenderiam ser totalmente triviais e/ ou profanas. Antes costumava pensar que Deus estava nos grandes acontecimentos, ou melhor dizendo, estava presente quando acatava meus caprichos e desejos, e hoje tudo mudou porque de fato Ele se faz presente quando acato aos desejos dEle, quando digo um incomensurável sim aos planos de Deus, passando a viver da graça de Cristo. Logo, quando desperto, entrego meu dia a Ele, peço para poder ser um bom instrumento para Ele, peço para ser forte o suficiente para segui-lo quando tudo ou todos parecem dizer o contrário. E essa é a liberdade que hoje vem tomando o meu coração, a liberdade de seguir com e em Cristo.

Encontro com um pequeno anjo

São 8h aqui no Peru. Estou tomando café com a minha comunidade quando, de repente, toca a campanha e me deparo com uma criança, cujo nome é Daiana (nove anos). Como de costume, trato de estabelecer uma conversação e ela me pede água. Ingenuamente, atendo seu pedido, trago a água e ela a toma. Inclino-me para ela oferecendo-lhe um abraço, começando por fim a nossa conversação que, até então, me parecia “NORMAL”, quando Daiana me pergunta: “Amanhã vai abrir o Ponto Coração?” Eu simplesmente respondo: não, amanhã é o nosso dia de descanso. E ela me diz: “É que eu queria passar aqui amanhã, no mesmo horário, para tomar um pouco mais de água.” Em seguida me abraça e se vai, levando com ela um pedaço do meu coração que agora está despedaçado.

Ah se as coisas fossem tão óbvias, ah... se tudo se tratasse de um copo de água! Qualquer pessoa poderia ter visto no olhar daquela criança que a água que ela necessitava era uma outra, aquela que não se encontra nas lojas porque não se vende. Trata-se da água encarnada no mais puro e gratuito amor. É a agua de uma presença genuína e fecunda, que preenche e sana tudo. Ah! Daiana, se eu pudesse voltar no tempo e te responder mais uma vez, amanhã: Sim, está e sempre estará aberto para você, e ainda que não estivesse eu o abriria, porque para ti eu faria isso tantas vezes fosse necessário.

Afinal, o que faz com que uma criança de nove anos venha a planificar uma suposta sede, justo depois de saná-la? AMOR, PRESENÇA, GRATUIDADE. É isso que nossa Daiana e grande parte de nós necessitamos.

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A pequena Daina e Rachel (ex amiga das crianças) 

Minha pequena amiga, Yaneli

As 15:20h, como de costume, saímos para fazer visitas, que acontecem sempre em dupla. Nessa tarde fui em companhia de Marie, minha irmã de comunidade, da Suiça, uma pessoa incrível.

Bem, mas o que quero contar para vocês é a historia de minha pequena amiga, Yaneli, uma garota de nove anos, que vem sempre tomando meu coração. Ela vem de uma família muito, mais muito humilde. Mas, esse pequeno detalhe torna-se a coisa mais diminuta do mundo quando se conhece um pouco mais sobre Yaneli. Quando cheguei ela costumava ser muito reservada, quase não falava. Agora, impressionante, ela chega, lança-se em meus braços e diz tudo sem precisar concretamente falar uma só palavra. Um gesto que revela tudo.

Nesta tarde, especificamente, ela me chamou para jogar e eu, a pessoa mais tonta do mundo, comecei a procurar as barbies quando, de repente, ela cravou o meu coração com a sua dura, mas não menos linda realidade. Começou a encher um saco plástico, o amarrou e jogou para cima, com a mais profunda naturalidade. Um saco plástico era o brinquedo dessa pequena jovem.

Mas essa tarde não terminou aí. Quando ela se cansou de jogar com a sua bola de saco plástico, fomos encontrar os seus “AMIGOS”, a saber: três patos, dois gatos e sua cadela, carinhosamente conhecida como Petty. É incrível! Ela verdadeiramente doa-se por completo para eles, numa incrível conexão e uma doação total. A princípio isto bastaria, salvo não fosse o feito de que essa pequena garotinha nos apresenta o seu mais novo tesouro: um pequenino jardim que para ela, é claro, é o maior do mundo. Sentamos em frente de sua pequenina casinha e nos pusemos a falar durante quase 20 minutos do seu incrível jardim, dos seus máximos cuidados para com ele, de cada pequenina nova folhinha que vem surgindo. Quem diria queridos amigos que meio metro de pequenas folhinhas pudessem se tornar um precioso tesouro.

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A preciosa Yaneli  Agora, tempo do Natal, geralmente passamos tanto tempo preocupados com os presentes que nos esquecemos do mais importante: PRESENÇA, AMOR, GRATUIDADE, as três palavras com as quais comecei minha carta e as três com as quais quero terminar. Assim, quando pensarmos em esquecer essas três palavras, pensemos em nossa preciosa Daina e na nossa pequena Yaneli, afinal, AMAR, É: ESTAR PRESENTE.

Feliz Natal para todos, e muito obrigada por percorrerem comigo as ruas de La Ensenada del Chillion, por entrarem no coração de cada amigo que compartilhei com vocês, obrigada por fazer esse tempo possível para mim.

Com todo carinho do mundo.

Manuele Carvalho


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