• 11 de março de 2016
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6ta Carta de Duarte, no Uruguay

Montevideo, 4 de Março de 2016 Queridos padrinhos e amigos,

É com grande alegria que vos volto a escrever! Assim, estarão a par dos últimos acontecimentos relacionados com o Pontos Coração São Francisco de Assis. Em princípios de Fevereiro, mudámos- nos para a nova casa, oferecida pelo arcebispado de Montevideo. Porém, como a vivenda tinha que ser adaptada às condições que a nossa vida exige, iniciámos uma remodelação que deve terminar no fim deste mês. Enfim, estamos a viver temporariamente em dois salões paroquiais que se encontram nas traseiras da casa.

Encontramo-nos a um passo de um bairro precário de Montevideo, chamado “40 semanas”, no centro de um vale atravesssado pelo rio Miguelete. À beira do rio, as habitações são de lata e as ruas de terra, mas subindo um quarteirão deparamo-nos com um lugar muito bonito, coberto por frondosas árvores, que ensombram pequenas vivendas oferecidas pelo governo uruguayo, às pessoas com menos recursos económicos. No cimo do monte, ergue-se imponente o Cerrito (igreja inspirada no Sacre- Coeur de Paris).

JPEG - 62.4 KB Foto: Atrás, o Ponto-Coração São Francisco de Assis. Durante três dias vendemos bolos e pizzas aos amigos e vizinhos, de modo a angariar fundos para as obras da casa.

JPEG - 62.3 KBFoto: Ao redor da mesa, festejando o meu aniversário, no dia 25 de Fevereiro, com toda a comunidade: Kelsey, Andrés, Carole e Mathilde

Neste momento, somos cincos na comunidade, pois chegou um novo missionário, chamado Andrés. É Argentino, de Santa Fé e têm 26 anos. É muito bem disposto e inteligente e ficará um ano a viver na casa. A vizinhança é muito prestável e agradável. As diversas casas paralelas ao nosso jardim, atravessadas por um estreitíssimo corredor, são todas da mesma família: pais e filhos, tios, primos e avós. Há muitas crianças, entre as quais Juan, Jean- Pierre, Melanie e Naomi. Como o bairro é bastante conflictuoso, os meninos saem pouco à rua, de modo que jogamos uma espécie de voleyball através duma rede de ferro que divide as nossas casas. Até já me chamam Duda! Muito embora, ao início lhes fosse difícil, pois duda em castelhano, significa dúvida. Mas como sabem, a capacidade de adaptação das crianças é imensa, de modo que não tardaram em chamar-me por este diminutivo.

JPEG - 56 KB Foto: Com várias crianças vizinhas, festejando(por segunda vez) o aniversário

Um rosto que me salva

Era uma tarde calorosa. Acompanhado por Carole, dirigimo-nos apressadamente à casa de Nivea, uma vizinha que eu ainda não conhecia. Chegados ao local batemos à porta, veio receber-nos um homem mulato com uma certa idade, com um sorriso de orelha-a-orelha. Fez-nos entrar e conduzindo-nos à sala, convidou-nos a que nos sentassemos à volta da mesa, dizendo-nos simultaneamente, que a sua esposa não se encontrava em casa. Já sabia de antemão que se chamava Miguel, mas não sabia qual era o seu trabalho ou quantos filhos tinha.

Perguntando-lhe, respondeu- me que tinha sete filhos e que tinha sido militar durante muitos anos, dando-nos a entender os sacrifícios que fez para oferecer uma vida condigna à sua família; entre os quais, o de viver dois anos na Antártida, como cozinheiro numa base militar. Repentinamente, levanta-se e sai pela porta da sala. Regressa, com um arbusto bizarro, e diz-nos com um sorriso entediado, que esta, era a única planta que crescia nesse desoladíssimo continente! Afirmou, orgulhosamente, que o esforço valeu a pena, pois segundo as suas palavras: “ Todos os meus filhos são boa gente.”

A determinado momento perguntou-nos: Quem vos ensinou a ser assim? Os vossos pais? Como é que jovens de vinte e um e vinte e dois anos vêem viver num lugar como este, não por necessidade, mas por pura opção?

Respondi-lhe que o impulso de deixar tudo para servir, só poderia ser o resultado de uma eleição de Deus. Compreendi que a dúvida o assaltava, mas ao mesmo tempo, não poderia deixar de reconhecer uma certa verdade no que dizíamos. E passo a passo, abriu-nos o livro da sua vida; contou-nos como um menino, o mais novo de entre numerosos irmãos, foi abandonado pelo seu pai aos seis anos e ficou orfão de mãe aos oito, e como viveu até aos dezasseis anos em sucessivos orfanatos. E como uma das suas irmãs mais velhas se casou apressadamente, de forma a poder adoptá-lo.

Na adolescência caminhava sempre sozinho. Afinal, ele não era o senhor da sua vida? E numa dessas tardes em que se arrastava pelas ruas da cidade, ouviu os cantos de uma celebração religiosa. Vencido pela curiosidade, colocou-se no umbral da porta e escutou a música. Assim que terminou a ceremónia, alguns dos membros vieram ao seu encontro. Não especificou o que lhe disseram mas, o que é facto, é que quando Miguel abandonou a igreja, era um homem diferente. Ele mesmo confessou que esta transformação foi misteriosa e incompreensível. Doravante, já não iria caminhar só, guiado somente pelo seu parecer e pelos seus desejos.

Passados alguns meses, conheceu Nivea (sua actual esposa) e nesse instante, a experiência de sentir- se amado por um outro, ganhou forma no rosto desta mulher. E ainda hoje, Miguel confessa humildemente : “Ela salvou-me!”

E eu? Posso assegurar que os rostos de Juancito e Jenifer, que continuamente me chamam do outro lado do muro, têm o dom de me salvar. Quando Martín, Dylan e Nelson do Cottolengo, gritam de euforia quando entramos na sala onde estão encerrados,e dizem “ Papá, papá, has venido!”, estes rostos salvam-me! Quando Lili, uma amiga do bairro, me diz com os olhos cheios de lágrimas: “Peço tanto à Virgem que os meus filhos possam sair da prisão antes que eu morra!”, este rosto é capaz de me libertar de todas as minhas misérias. É uma face que anuncia que o Reino está próximo!

JPEG - 51.5 KB Foto: Um belíssimo almoço preparado por Lili e Marcelo, que me ensinaram a fazer Nhoques

Queridos amigos, desejo-vos uma Santa Páscoa, agradecido por todo o apoio que me têm dado ao longo desta missão.

Com afecto,

Duarte


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